O GRANDE CAIXÃO MUSICAL


Tenho percebido no alvoroço musical de sempre que as movimentações estão apontando para um só lugar. E antes de tudo gostaria de ressaltar o quão frustrante é ouvir “E qual artista renomado vai participar do seu show?”. Todas essas perguntas imbecis me levam a perceber que o meio musical esse ano tem em sua maioria projetos que reverenciam algum artista renomado das antigas. Me incluo nesse fluxo.

Mas qual a necessidade desesperada que os novos artistas têm em se respaldar em obras anteriores que “já deram certo” e qual o interesse das gravadoras nesse tipo de “garantia de público”? Quer dizer então que, agora, não precisamos criar nada, apenas entender e reproduzir o passado? Por mais que eu tente o tempo todo reler e renovar a obra de Caymmi eu ainda me perco na grandiosidade da simplicidade de suas canções. Isso é inevitável.

Nem todos os artistas são autores mas podem interpretar novas canções e fazer com que a música volte a circular e respirar. Agora estamos todos vivendo em cima de um grande caixão, celebrando um eterno rito funerário de lamúrias e suspiros sobre “aquele tempo que era bom”. Socorro.

A babaquice número dois: colocar sempre um artistão no show do artista novo para “bombar” a casa. Então está bem, você só pode criar público tendo que encarar o público dos outros? Isso até pode ajudar a encher a casa mas DUVIDO que ajude o artista em sua trajetória. Ser apadrinhado por um artista de grande porte é muito bom e importante, mas esse hábito que a assessoria de imprensa tem de te obrigar a ter esse tipo de convidado é uma desgraça e uma descrença.

Eu não posso criar público? Tenho que respeitar mais o passado? Que prisão é essa? Assim fica mesmo difícil um compositor confiar em suas canções e um intérprete escolher novos talentos para lançar. O ciclo vicioso das panelinhas, dos convidados especiais, da assessoria de imprensa, entendiam qualquer um. Aí você se pergunta “Então como eu vou fazer sucesso?”. Não sei, se vira, já tentou?


Alice Caymmi é cantora e compositora.

GANHAR OU PERDER, MAS SEMPRE COM DEMOCRACIA



Para Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira


Democracia Corinthiana. O que essas duas palavras incitam em você? Um bando de loucos que acham possível misturar futebol e política? Uma piada de paulista? Ou um movimento que em muito colaborou para a redemocratização do país?

Sábado (05/04) à noite fui a uma sessão do festival “É Tudo Verdade”, o saguão do cinema já vivia um clima de estádio de futebol dos anos 80, fila, ingressos esgotados sem venda antecipada, sem internet e um amontoado de gente querendo entrar pra ver o espetáculo. A diferença ficou pela prazerosa ausência da polícia que naquela época batia sem dó (só naquela época?). Cheguei uma hora antes e, mesmo assim, foi difícil arrumar ingresso, a galera já se empurrava na entrada da sala, cantando e girando a camisa naquele clima que antecede as grandes decisões seja no Pacaembu, na Candelária, no Maracanã ou na Praça da Sé. Quando consegui entrar no estádio, a arquibancada já estava tomada, então me dirigi para a primeira fila, a extinta geral, pra ver tudo daquele lugar do qual você perde a perspectiva do campo, mas ganha a proximidade física do calor da emoção.

Democracia em Preto e Branco era o jogo daquele sábado à noite, um filme de Pedro Asbeg que mistura futebol, o nascimento do rock brasileiro dos anos 1980 e o processo de redemocratização do Brasil. A Democracia Corinthiana não me era muito familiar, porém ocupava um lugar meio mitológico no meu universo futebolístico. Um nome estampado em vermelho e preto numa camisa do Corinthians, uma simpatia pela ideia, e só. Por todos os deuses, quanto ignorância, a cada minuto que o jogo avançava o filme ia me mostrando o quão pouco eu sabia da importância de toda essa história. Saí do cinema com a seguinte sensação: “Pra frente Brasil” é o caralho! A parada é Rock and Roll!





Quando o juiz apita o início do certame, a voz e o sotaque paulista da Rita Lee entram narrando o que vai se mostrando como um filme fundamental para entendermos o Brasil do início dos anos 1980, mas também imprescindível para pensarmos o Brasil de agora. Depois de ser colonizado e explorado por mais de 300 anos, o Brasil se tornou uma república em 1889, a democracia entrou em serviço, mas logo saiu pro almoço e só voltou depois da segunda guerra mundial. É com essa simplicidade contundente que a partida começa e, como num gol relâmpago, nos dá uma nova visão de todos aqueles fatos (nem tão) distantes. O golpe militar e a presença de um funesto Vicente Matheus na presidência do time mais popular de São Paulo acabam ganhando contornos de irmandade, de uma maçonaria que já nascera ultrapassada. Mas uma geração talentosa e politizada começa a mudar por dentro a história do time do Parque São Jorge.

Comemoração Black Panters
Quando é que você vê um médico que, depois de formado, resolve virar jogador profissional de futebol? O Magrão, o doutor Sócrates, o cérebro da história toda, o cara que comemorava seus gols com o punho em riste à la Black Panters, tinha ao seu lado o endiabrado Wladimir, um operário da bola, negro retinto, articulado, ligado aos movimentos sociais e às centrais sindicais. Quando a estes dois se juntou um roqueiro de 19 anos, cabeludo, a coisa começou a ferver. Walter Casagrande trouxe a guitarra elétrica para um universo que só se relacionava com a cuíca e o pandeiro, num momento do país no qual a mudança da trilha sonora se fazia presente e essencial. Bandas como Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ira, Ultraje a Rigor, Blitz e tantas outras gritavam hinos de amor e canções de protesto num momento de reabertura política. A ditadura militar parecia perder o jogo depois da anistia iniciada em 1979, mas vinha com um esquema tático conservador, fechadinho, um ferrolho no meio de zaga. Como furar esse bloqueio?

Escute: 
Estado Violência - Titãs
Inútil - Ultraje a Rigor

Com a saída de Vicente Matheus da presidência do Corinthians, Waldemar Pires assume o cargo e, pelas vias transversas do surrealismo, coloca como diretor de futebol o sociólogo Adílson Monteiro Alves. Consciência política, guitarras distorcidas e um sociólogo no comando, que timaço! A Democracia Corinthiana explodiu. No documentário, Sócrates diz que o acontecimento mais importante foi a mudança do léxico do futebol naquele contexto. Os jogadores estavam cansados de serem apenas funcionários presos a uma lógica hierárquica, repressora, que os encarcerava em concentrações e os tirava a liberdade. Nada muito diferente do funcionamento político do Brasil naquele momento. Assim, a conversa no vestiário mudou e, com um sociólogo ao lado do time, o Corinthians fez algo único no país: construiu uma equipe que não obrigava os jogadores a se concentrarem, que tomava decisões de forma horizontal com todos votando, além de repartir os bichos das partidas não só com os que nela atuaram, mas com todos os funcionários do clube, do roupeiro ao ponta esquerda. Horizontalidade, voto direto universal, distribuição de renda, um léxico que invadia o mundo do futebol enquanto em Brasília ainda era 1968.

As imagens de arquivo e as entrevistas com jogadores, jornalistas, músicos e políticos da época são fantásticas, emocionantes. A trilha de músicas que marcaram a vida de quem tem mais de 30 anos é matadora, mas o mais incrível é perceber o desejo daqueles jogadores de se manifestarem, de perceberem o alcance da linguagem do futebol num país amordaçado e censurado em meio ao caos social em que estava submerso, e a vontade de conclamar a massa para uma mudança. Faixas, cartazes e mensagens nas camisas começaram a surgir. A Democracia Corinthiana esquerdista era estampada no uniforme do Corinthians em letras sinuosas que lembravam o logo da Coca-Cola (ironicamente, um dos maiores símbolos do endemoniado capitalismos ianque), cultura pop, cultura de massa Corinthiana gritando em tom de Rock para o mundo. Mas o jogo da ditadura era pesado, e até o futebol os milicos tentaram calar. Em 1982, pela primeira vez, haveria eleições diretas para o governo de São Paulo, o 15 de novembro se aproximava e o Corinthians, sem patrocínio na época, entrou em campo com “DIA 15 VOTE” estampado na camisa. Começava a campanha para acordar o povão para a democracia, para o voto livre. A censura tesourou a camisa, mas não matou a ideia. A equipe voltou a campo carregando a enorme faixa que dizia “Ganhar ou perder, mas sempre com DEMOCRACIA”. Aquilo não foi uma resposta tapa na cara, foi um balãozinho, um chapéu muito bem dado, uma bola entre as pernas humilhante, deixando os milicos de quatro no chão. A Gaviões da Fiel (quem diria que um dia eu escreveria com simpatia esse nome) exibia faixas como “Anistia ampla, geral e irrestrita”, “quem escolhe o presidente é a gente”. Mas os militares tinham o juiz do lado deles, o roubo era descarado, da bomba do Riocentro até prisões na arquibancada.


A linguagem do futebol percorre e costura todas as camadas sociais do Brasil, ensina Sócrates, é um papo que une a todos, saber e poder usar o futebol como espaço de livre troca de ideias é algo que devemos aprender com a Democracia Corinthiana. Em 2010 encontrei Dr. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira num boteco de São Paulo, trocamos uma ideia sobre futebol e democracia. Perguntei pra ele o que mais tinha doído: a derrota pra Itália em 82 ou a derrota das Diretas Já em 84? Ele só conseguiu dizer, olhando pro nada: “eu queria ter ganhado”. Entendi ali porque todo aquele sonho dos anos 80 fica na minha cabeça como apenas um mito distante. No último e mais lotado comício pelas Diretas Já, Sócrates estava praticamente vendido para a Fiorentina, mas subiu ao palanque e gritou: “se a emenda das Diretas for aprovada eu fico no meu país”: aplausos! Mas ele ainda volta e se corrige: “Se a emenda das Diretas for aprovada eu fico no NOSSO país”!!! O Vale do Anhangabaú vem abaixo e foi difícil segurar as lágrimas naquela explosão estilo gol do título aos 43 do segundo tempo. Mas a vida sempre foi um perde e ganha, ante a derrota da emenda com penalty roubado aos 45 do segundo tempo, o Magrão foi mesmo jogar na Itália, o título não veio, Brasília não era o Brasil, era um universo paralelo que cagava para os milhões que gritavam por liberdade nas ruas. Fomos garfados nas diretas e a dor foi maior do que a derrota da seleção de 1982 no amaldiçoado gramado do Sarriá. Foi sem dúvida a maior broxada da história brasileira, como aparece no texto de Arthur Muhlenberg narrado pela Rita Lee no filme.

Gaviões da Fiel com a faixa: Presidente quem escolhe é a gente.

Faixa: “Ganhar ou perder mas sempre com democracia.”

No entanto, o espírito daqueles anos de lutas, dribles, lançamentos pela democracia não foram totalmente calados pela estupidez da zaga adversária. Casagrande é humilde no filme, saindo-se com a bela imagem de que a Democracia Corinthiana apenas bateu um pênalti que havia sido construído pelo time anterior. Um time de ativistas, artistas, políticos, jornalistas que sonhavam com um país livre. Se hoje um eco da ditadura ainda se escuta, na violência do Estado e na estranha narrativa dos principais meios de comunicação, há um grito que vem das arquibancadas, que vem das ruas ansiando por mudanças. #nãovaitercopa? Vai ter Copa. A máquina da grana é por demais avassaladora. Mas e se soubermos como mudar, mais uma vez, o léxico do futebol? Se conseguirmos estampar democracia e não Nike na camisa da seleção brasileira? E se o Neymar entender que ser campeão é um detalhe? Sonho, mito, utopia, pode ser. Mas aquele bando de loucos dos anos 80 sonharam alto e isto me inspira.

Quando me despedi do Magrão, pra sempre, lá naquele boteco de São Paulo, já estávamos bêbados. Sou um rubro-negro apaixonado, mas dei um abraço naquele Corinthiano maluco e falei pra ele aquela frase que costumam repetir para o Zico: “se você não ganhou uma Copa do Mundo, azar da Copa do Mundo”.


Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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À PROCURA DE BOB DYLAN


Não é um programa comum de quem vem para Nova York, mas logo na primeira semana que cheguei dei um jeito de organizar minha agenda para visitar alguns dos pontos mais importantes do despertar de um dos maiores ícones da cultura mundial e um dos meus ídolos quando adolescente. Foi aqui nessas ruas repletas de bares e cafés que Robert Zimmerman se re-inventou como Bob Dylan.

Me isento de apresentar Bob Dylan aqui neste texto. Se você quiser saber quem é, recomendo começar pelo primeiro disco e avançar pelos outros 28 que ele gravou até hoje – o homem ainda está vivo e compondo, o que é assustador, inclusive em pensar que ele deve estar agora neste momento andando por aí, limpando sua gaita, enquanto você, não sei por qual motivo, está decidindo ler este documento. Bob Dylan aconteceu pra mim quando eu tinha uns dezoito anos. Pode ser tarde para alguns, mas para mim foi o momento exato. Foi vício fulminante. Devo ter passado uns meses (ou anos) sem ouvir outra coisa. O que mais me atraia era a simplicidade de seu trabalho: um homem com um violão cantando letras avassaladoras que mudariam o mundo. Um dos biógrafos dos Beatles assume que se não fosse pelo cantor magro, de voz anasalada, nascido no início dos anos 40 no interior de Minnesota, os quatro rapazes de Liverpool continuariam tocando “I wanna hold your hand”. Dylan é considerado responsável por colocar seriedade na música pop.

Vim para NYC estudar Creative Writing e ficar mais perto da Julia, minha namorada que mora aqui há um ano e estuda cinema na SVA (School of Visual Arts). Estamos morando em Chelsea, que é muito perto de Greenwich Village, local onde Bob Dylan fez sua vida noivaiorquina e onde o folk floresceu. Expliquei pra ela a minha missão Dylanica e nos programamos para ir juntos à alguns lugares.

Levei quatro dias para fazer tudo. Tive alguns contratempos pelo caminho e surpresas que não esperava que acontecessem. Se você não é fã do cara, é provável que se sinta entediado com essa história toda. Tudo bem. Mas se você sabe do que estou falando, vamos nessa blowin in the wind like a rolling stone.



DIA 1

Jones St
First Apartment
Chelsea Hotel

Manhã de sol e temperatura à 13ºC. Comparado com os dias passados, podemos dizer que foi um dia quente. Eu e Julia passamos no café Snice para abastecer nossa mente de cafeína e depois fomos na Popbar, que é uma casa especializada em picolés, para abastecer nossa dose de glicose. O primeiro lugar da nossa mini turnê foi passar na Jones St. A rua foi eternizada na capa do álbum “The Freewheellin Bob Dylan”, onde o tal está andando abraçado com sua namorada na época, Suze Rotolo. Embalados pelo espírito da cafeína com picolé, fizemos uma foto emulando a capa do disco. Esse disco é de 1963, o segundo da sua carreira e o primeiro a fazer um grande sucesso, aliás, hiper sucesso já que nele estão as canções “Blowin in the Wind”, “A Hard Rain’s a-Gonna Fal”, “Girl From the North Country”, “Don`t Think Twice, It`s All Right”, entre outras. O disco foi um acontecimento na cena musical da década de 60. Suas letras falavam de direitos civis e da guerra nuclear junto de canções de amor e outras bem humoradas. Foi nesse disco que o reconhecido talento de Dylan foi revelado pela primeira vez, conduzindo-o ao reconhecimento nacional e internacional, sendo chamado de “a voz de sua geração”, título que inteligentemente repudiou.

Sua fama como compositor o levou a mais de uma vez tentar explicar como era o seu processo criativo. Ele dizia que não passava de um transmissor, um canal por onde as canções passavam para o papel. “As canções estão todas aí, se não sou eu quem vai trazê-las, é alguém”. Em uma outra entrevista ele também disse “Às vezes passo duas semanas sem escrever nada e depois consigo escrever um monte de coisa. Aliás, escrevi umas cinco canções ontem à noite mas deixei os papéis largados em algum lugar do Bitter End”, Bitter End era um bar no Village.

Capa do disco / Pardal e Julia na Jones St


Na rua Jones tem uma loja de discos que faz questão de decorar a vitrine com a capa do famoso vinil. No dia que fomos não estava nevando, então precisamos de um pouco de imaginação para visualizar a rua como naquele dia de fevereiro de 1963. Bob e Suze foram fotografados por Don Hunstein na Jones em uma manhã seguida de uma noite de neve. Em sua autobiografia, Suze descreve a capa como sendo uma influência na estética de outras manifestações culturais por sua simplicidade e espontaneidade; a maioria das artes dos discos da época requisitavam uma produção e efeitos que a capa do Freewheelin acabou quebrando. “Bob estava usando um casaco fino e eu estava com um suéter e com um dos grandes e grossos casacos que peguei emprestado dele. Toda vez que olho para essa foto eu me acho gorda.”

Em uma outra entrevista ele também disse “Às vezes 
passo duas semanas sem escrever nada e depois consigo 
escrever um monte de coisa. Aliás, escrevi umas cinco 
canções ontem à noite mas deixei os papéis 
largados em algum lugar do Bitter End”.

Ali por perto fica o apartamento onde Dylan morou com Suze. Na época um lugar pequeno com poucas mobílias e uma cama que parecia um armário. Foi onde compôs grande parte de seus primeiros sucessos. Hoje em dia se você procurar por alguma pegada dele não vai encontrar nem uma palheta. O apartamento agora é uma loja de produtos eróticos. Entramos para ver o espaço e tentar imaginar como era o clima lá. Fiquei olhando para as paredes imaginando ele tocando violão, andando de um lado pro outro, lidando com a dificuldade de terminar uma canção. A vendedora se aproximou e me perguntou se eu procurava alguma coisa. Respondi que sim e ela perguntou se era pra mim ou para outra pessoa. Eu disse que na verdade estava ali por outro motivo, por causa do Dylan. Ela não entendeu e eu repeti. Ela disse “You mean dildo?” Respondo Não, não, Bob Dylan. Ela sorriu meio sem entender, ela não era americana, acho que não falava muito bem inglês e respondeu “Ahh, aqui? Fique à vontade”. Disse pra ela que ele tinha morado ali, que esse tinha sido o primeiro apartamento dele. Não sei se ela estava entendendo o que eu estava dizendo, me falou que era nova no trabalho e que não sabia nada disso. “Mas ele está vindo pra cá agora?”

Ainda estava sobrando um tempinho e depois de tomarmos mais café – é basicamente como funciona a vida na cidade, de ponto em ponto tomar um café – pegamos um ônibus para a 23th St. Eram umas quatro horas da tarde e a cidade estava viva nos meus olhos. Quando eu era pequeno, gostava de pensar que podia me transferir para outro corpo e viver sob a consciência de outra pessoa. Depois de viver muito tempo numa mesma cidade se torna mais fácil fazer a Transferência Imaginativa de Consciência (TIdC), olhar para uma pessoa e ver seu passado e destino. Já no estrangeiro a brincadeira zera. Para onde vai o senhor sentado ao meu lado, com boina, cachecol, um bigode mesclado de cinza e preto e com a cara fechada de policial? O que fez hoje a moça loira de olhos claros, uma versão executiva da Siena Miller, que disfarça sua risada enquanto assiste algo em seu tablet? O que está pensando o garoto negro de uns onze anos de idade sentado na minha frente, olhando pra mim, de repente pensando quem é este cara, por que tem essa cara engraçada e o que ele deve estar pensando?



Descemos do ônibus e fomos até a fachada do Chelsea Hotel. Nada muito especial, mas no passado tinha sido um celeiro para artistas de todo tipo. Patti Smith, Sid Vicious, William Burroughs e, claro, Bob Dylan. Segundo consta foi aqui que ele escreveu “Sad Eyed Lady Of The Lowlands”, canção sobre sua então esposa Sara. O hotel está passando por alguma reforma e seu hall está meio decadente. Não ficamos muito tempo, estávamos com fome e fomos encontrar algo para comer ali por perto. Naqueles dias estávamos comendo muitos hamburgers e pizzas, e pouco tempo depois eu começaria a sentir falta do arroz com feijão e bife à milanesa com ovo e batata frita.



DIA 2

Second Apartment
Cafe Wha?

Nosso café da manhã foi panquecas com bacon e ovos, suco de laranja e café com leite. O dia acordou fazendo 3ºC. Para um brasileiro, acostumado com verão o ano inteiro, essa temperatura dá trabalho. Agora, para um baiano nascido e criado ao lado do mar, é um desaforo. Julia me emprestou uma meia-calça e estou certo de que é uma das melhores invenções já criadas (assim como a calça legging, mas essa não é pra mim…), de modo que quando visto a meia-calça por baixo do jeans, me sinto confortável no calor da Bahia de novo.

Saí de casa sozinho. A Julia tinha que ir para o curso e então desci acompanhando ela e nos separamos na esquina. Como eu disse, basicamente a história do Dylan em NYC se resume ao Greenwich Village, e para ser mais preciso, à rua MacDougal Street. Como primeira missão do dia, fui caminhando em direção ao segundo apartamento do Dylan. Um prédio de poucos andares com uma pequena porta verde de entrada. Ele morou neste apartamento com sua mulher e seus filhos nos anos 70. A cidade não era mais a mesma. Ele não era mais um desconhecido que caminhava pelas ruas, seu sucesso era uma placa de chumbo, vivia sendo parado nas ruas para tirar fotos e dar autógrafos. Foi morando neste apartamento que Dylan teve uma briga com A.J. Weberman depois que Dylan pegou A.J. mexendo em seu lixo, mesmo depois de ter pedido que parasse. Contam que Weberman tinha essa mania de semanalmente conferir o que o ídolo estava consumindo. Coisas piores já tinham acontecido com Dylan em relação ao fanatismo, do tipo de já ter sua casa invadida mais de uma vez por fãs que o chamavam de messias. Em uma das vezes, quando morava em Woodstock, chegou a expulsar um fanático de uma forma bastante, digamos, americana: à tiros de rifle. Esse foi um dos motivos que fez Dylan se mudar para Malibu, California, onde mora até hoje.

A não ser que você também queira investigar o lixo dos moradores do prédio, não há muito o que se fazer ali, exceto observar e imaginar o passado. A rua estava fria então parti direto para o Cafe Wha?, que fica na outra quadra da mesma rua.

Bob Dylan, Suze Rotolo e Dave Van Ronk andando por Greenwich Village nos anos 60


O Cafe Wha? é um clube que fica no coração de Greenwich Village. Mais como uma caverna subterrânea, mal-iluminada, que foi e ainda é considerada um dos bares mais importantes para a efervescência musical dos anos 60 nos EUA. Foi onde Bob Dylan fez o seu primeiro show assim que chegou do interior. Por lá também já passaram Jimi Hendrix, The Velvet Underground, Bruce Springsteen, Peter, Paul and Mary, Woody Allen, Lenny Bruce, Bill Cosby, começando suas carreiras se apresentando naquele salão escuro. Os shows eram uma mixórdia extravagante, aceitava praticamente qualquer coisa. Comediantes, ventríloquos, poetas, imitadores, mágicos, shows de música, de hipnose, de acrobacias, tinha de tudo.

Umas das coisas impressionantes da relação das pessoas 
com essa cidade é como elas andam rápido. A velocidade 
com que as coisas acontecem por aqui. A velocidade com 
que a cidade gira ao nosso redor nos faz ter mais pressa. 

Ainda hoje o Cafe Wha? está aberto para apresentações e ainda qualquer um pode se apresentar ali desde que tenha mais de 21 anos. De todos os lugares que passei nesta minha excursão, foi o único onde vi outras pessoas tirando fotos. Naquela tarde tinha um grupo de umas cinco pessoas fazendo um som com canções folk na calçada, mesmo no frio o grupo parecia não se importar. Poderia ser uma cena cafona e minha reação óbvia seria dar meia volta e continuar a minha também cafona procissão, mas quando começaram a tocar “It Ain`t Me Baby” não consegui resistir e me aproximei dos cinco. Outras pessoas foram chegando, tirando fotos. A noção de ridículo foi transmutando em um prazer estranho, a sensação de ter encontrado outros do bando. Perguntei para um dos caras do meu lado se ele poderia tirar uma foto minha e ele me perguntou se eu sabia tocar violão. “Você conhece alguma folk song?”. Respondi que só sabia algumas do Dylan. “Ótimo, você toca uma que eu tiro a foto pra você”. O cara era meio doidão então não botei muita fé no que ele disse e deixei pra lá. Duas músicas depois ele catou o violão dos braços do outro e me entregou, perguntando meu nome e dizendo “Sua vez, senta aí e vamos fazer um som”. Na hora me deu um branco, que é o que geralmente acontece quando me pedem para tocar alguma coisa, sempre respondo não sei, não me lembro de nenhuma música. E mais uma vez foi o que eu disse. Zach, era seu nome, se apresentou e disse “Esse é Jerome, essa é Sara e Daisy e esse é Coby e vamos cantar com você”. Instintivamente minha mão começou a dedilhar “Positively 4th Street”, e antes que eu abrisse a boca eles já foram cantando o início da letra “You got a lotta nerve / To say you are my friend”.

Segui tocando “Don`t think twice, It`s all right”, “Desolation Row” e o violão foi rodando por outros braços, quando vi eu já estava ali há mais de uma hora, algumas pessoas passavam, tiravam fotos, nos davam dinheiro e com o tempo outras foram se juntando.

Zach pegou o chapéu com a grana e sugeriu comprarmos bebidas para uma sequência no seu apartamento. Dividimos o grupo e uns foram direto pra casa do Zach arrumar as coisas e eu, Zach e Jerome ficamos encarregados de comprar as bebidas.

Umas das coisas impressionantes da relação das pessoas com essa cidade é como elas andam rápido. Claro, um dos fatores é o frio que não deixa ninguém parado e nos faz estar sempre querendo chegar em algum lugar aquecido. Outro fator, acho, é mesmo a velocidade com que as coisas acontecem por aqui. A velocidade com que a cidade gira ao nosso redor nos faz ter mais pressa. Conversei com algumas pessoas que me disseram já terem passado por sérios problemas de ansiedade porque o ritmo das coisas às vezes é inadministrável.

Da loja de bebidas liguei pra Julia chamando-a pra festa, mas ela ainda estava no curso. Falei que ia prolongar mais um pouco na rua, tinha feito amigos e que logo mais iria pra casa. Com as bebidas na sacola voltamos pela MacDougal Street até chegarmos ao apartamento. Já estava rolando uma mini festinha com pizza, coca-cola, maconha e claro, folk songs na vitrola. Como não conhecia as pessoas, decidi que iria servi-las. Éramos mais ou menos umas dez pessoas espalhadas em sofás, cadeiras, em pé na janela. A cada nova música a galera se exaltava e cantava um pouco. Conversei um tempão com Zach e Daisy, contei que estava em Nova York estudando Creative Writing, que trabalhava como editor em um site de textos e que tinha ido ao Cafe Wha? mais cedo porque estava escrevendo sobre os lugares que Dylan frequentava. Zach ficou entusiasmado e disse que queria me acompanhar nos próximos dias. Perguntou o que eu ainda não tinha visto. Respondi que queria ter ido ao Gaslight Cafe. Ele disse que iríamos amanhã e que também iria me levar num lugar especial. Que lugar especial, perguntei. “O café onde Bob Dylan escreveu Blowin in the wind.”

Zach era um fanático pela coisa. Me mostrou relíquias da história do folk. Palheta do Dave Van Ronk, manuscritos originais de compositores, fotos autografadas e um vinil do Dylan com dedicatória e tudo. “Esse é meu maior troféu. Posso perder tudo aqui mas não perco isso. Ele assinou para meu pai em um show. Meu pai trabalhava numa casa de show onde o Dylan se apresentou e conseguiu entrar no camarim e conversar com ele por uns 10 minutos e aí pediu para ele assinar pra mim”. Estava escrito: To Zach, dont look back, Bob Dylan.

Ele perguntou sobre música brasileira e eu citei o que achei que ele já fosse conhecer. Bossa Nova e Tropicália. Comparei a revolução proposta pela Bossa Nova com a revolução da música folk americana. O que Bob Dylan fez de diferente e consequentemente revolucionário foi se libertar das modulações simples do folk e colocar novas imagens e uma atitude jovem, usando fraseados que capturavam a atenção, incluindo todo um novo conjunto de costumes que evoluíram para algo que nunca tinha sido ouvido antes. Como a Bossa Nova fez com o samba convencional.



Andando pelo apartamento conversei com outros que estavam ali. Músicos, atores, poetas. Lauren era atriz e tinha passado o ano novo na Bahia e se encantado com a música baiana. Alejandro era de Barcelona, estava se formando em cinema e tinha gostado de Tropa de Elite. Fui andando até chegar em uma outra sala, com uma janela que dava para um beco. O espaço parecia uma oficina, com uma parafernália de todo tipo amontada por lá. Virei pro lado, tinha um quarto com um casal se pegando na cama. Fui até a cozinha, peguei o que deveria ser a minha quarta cerveja e fui pra sala. Zach estava dando em cima de Daisy; Jerome fazendo carinhos em um outro cara que eu não sabia o nome; um doidão falando alto e gesticulando largamente sobre algum lugar que ele foi e o que ele viu; duas garotas saindo do banheiro juntas; uma menina me ofereceu um baseado e eu respondi Não fumo maconha. A garota começou a falar alguma coisa sobre a morte como imitadora da vida e o nascimento como uma invasão de privacidade. Não sei quanto de maconha ela tinha fumado, mas ela tinha uma ideia própria sobre a natureza das coisas. Ou eu que não estava mais entendendo bem o inglês que ela falava. Ou ela que não entendia o inglês que eu falava, ou o suposto inglês, ou talvez nem tanto mais inglês que saia do meu raciocínio um tanto embriagado.

Cansei daquilo tudo e decidi enfrentar o frio da rua até chegar em casa. Logo na hora que estava saindo pela porta começou a tocar na vitrola “Love Minus Zero/No Limit”. Não teve jeito, tive que esperar os três minutos da música acabar para ir embora.



DIA 3

Fat Black Pussycat
Gaslight cafe

Acordei no dia seguinte com a cabeça pesada de ressaca. Levantei, tomei um banho, preparei o café. Comi torradas e panquecas com a Julia, contei do dia anterior, da galera que conheci, da festa e do Cafe Wha?. Ela me perguntou se eu tinha tirado alguma foto e só aí me dei conta que toquei as canções no violão e o filhodaputa do Zach não tirou a foto. Contei pra ela o que ia fazer hoje, que seria o último dia e combinamos de irmos juntos ao Gaslight de noite. Ela levantou, terminou de se arrumar e saiu. Fiquei lendo uns textos que tinha pra ler até dar meio dia e ligar para o Zach. Ele não respondia nem as mensagens nem o telefone. Li mais um pouco, adiantei o trabalho e voltei a ligar. Nada. Desci, almocei, passei no mercado, comprei frutas e uma Coca-cola, voltei pra casa e liguei pra ele novamente. O Zach atendeu com uma voz de quem tinha acabado de acordar. Marcamos num café perto da casa dele e pra lá eu fui.

É mais do que óbvio para mim que o que Dylan fazia 
era literatura. Não à toa era chamado de poeta, aliás o 
que ele cantava era mais interessante como poesia do que 
muitas das poesias que estavam sendo escritas na época.

O Stumptown Coffe Roasters fica na esquina da 8th street com MacDougal. Como havia suspeitado, Zach não estava lá quando cheguei. Pedi um cappuccino e sentei numa cadeira nos fundos do lugar. Aproveitei o tempo para começar a escrever um rascunho deste texto aqui. Era o último dia, tinha riscado quase todos os lugares planejados quando descobri que faltava um. Ali pela vizinhança existia uma livraria que foi o lugar onde Bob Dylan e Allen Ginsberg se encontraram pela primeira vez.

É mais do que óbvio para mim que o que Dylan fazia era literatura. Não à toa era chamado de poeta, aliás o que ele cantava era mais interessante como poesia do que muitas das poesias que estavam sendo escritas na época. Se você perceber bem, seu violão serve como paisagem de fundo para as imagens da sua escrita, para construir o ritmo da fala. Suas músicas são verborrágicas, contam histórias, abusam de técnicas narrativas. Muitas de suas canções valem como contos ou livros. “Its Alright Ma (Im Only Bleeding)" são sete minutos de história sobre a guerra e a juventude. Ele foi um dos primeiros músicos a nomear escritores como referência para o seu trabalho. Disse mais de uma vez que "On The Road" do Jack Kerouac era a sua Bíblia. Assim como os poemas e a figura do Allen Ginsberg, inicialmente um ídolo para Dylan e depois um mentor, amigo. Era uma admiração mútua. Ginsberg reconhecia nas canções de Dylan uma evolução da poesia beat. O que só fui descobrir naquela hora foi que os dois se encontraram pela primeira vez em um evento nessa livraria. Eu precisava visitar esse lugar.

Era bem possível que Zach soubesse onde ficava mas a sua demora estava me atrapalhando e decidi pesquisar no Google. Infelizmente, como basicamente tudo que visitei, a livraria não existe mais. Gastei mais um tempo tentando descobrir o que funcionava em seu lugar e o melhor resultado que tive datava de um site de 2002 se referindo a uma loja de roupas. Fiz uma busca mais complexa para encontrar o endereço da loja, coloquei o endereço no Street View e para minha surpresa a livraria que estava procurando ficava exatamente no café onde eu estava sentado.

Algumas mágicas acontecem e não tem como explicar.

Foi aí que Zach e Daisy entraram, e claro, a mágica toda se descortinou pra mim como quando descobríamos os segredos revelados pelo Mister M. A mágica vira uma receita de pão.

Zach pediu desculpas, disse que estava com uma dor de cabeça de duas toneladas e pediu um café forte e um pedaço de torta. Daisy sentou falando que tinha tentado acordar ele umas dez vezes e pediu um suco de alguma coisa que não consegui nem traduzir nem identificar o sabor.

Saímos do café rumo ao Fat Black Pussycat. Como quase tudo, fica na MacDougal street, número 105. O café Fat Black Pussycat não existe mais, agora o lugar é um restaurante mexicano chamado Panchito`s. Por ser muito próximo do Cafe Wha?, os artistas costumavam se reunir ali. “Foi aqui”, disse Zach, “Bob sentou, pediu um café, fumou seus cigarros e com uma caneta e um papel escreveu a letra de Blowin in the wind”. Daisy riu, disse já ter escutado aquela história umas cem vezes e saiu para comprar cigarros. Zach continuou, “Algumas vezes eu sentei ali esperando que alguma coisa surgisse. Que eu fosse agraciado pela inspiração”. Só que com tacos e michelada, não é?, eu disse. Deve ser essa a razão de nunca ter funcionado.

Para certas pessoas – para mim certamente – esse lugar tem a mesma magia que tem, para alguns, o campo de futebol onde Pelé fez seu centésimo gol, ou as ruas por onde Rimbaud passou, ou o ateliê de Van Gogh. É pura tolice para quem não se importa, mas esses pequenos símbolos estão relacionados com a história de cada um, se misturando com o desenvolvimento pessoal através daquilo que consideramos importante e relevante para a nossa própria formação. “Blowin in the wind” não é nem de longe a minha música favorita, quase não escuto, mas sei da sua importância, do que ela causou na sociedade em uma época em que a arte era participativa nas discussões sociais. Foi um hino para uma revolução que estava apenas começando. O artista que eu sou não consegue ficar indiferente à isso tudo.

Fiquei parado por um tempo olhando aquelas cadeiras e pensando no que o Dylan de 21 anos pensava, o que pretendia, que dia inspirado foi aquele para lhe dar todas as palavras e frases na mão, como um presente: Vá, tome, mude o mundo, agora caia fora daqui.

"É isso, vamos cair fora daqui", disse Zach, na minha tosca tradução para That`s it, lets get out of here. Daisy estava agarrada nele, se protegendo do frio.

Bares, cafés, lojas de conveniência, cookie shops, tudo estava aceso e preenchendo a cidade. Nova York ardia. As coisas explodiam em cores plenas, luminosas. A cidade inteira brilhando bem na frente do meu nariz.

De noite o plano era ir para o Gaslight Cafe. Assim como o Cafe Wha?, foi um dos primeiros lugares onde Bob Dylan tocou e onde acabou treinando e forjando suas músicas. O primeiro foi onde ele tocou e trabalhou pela primeira vez, o segundo foi onde fez sucesso. Em 2005 foi lançado o disco “Bob Dylan Live at the Gaslight 1962” – ironicamente a festa de lançamento aconteceu no Starbucks. Era de fato um dos lugares onde eu mais queria ir.

Eu e Julia encontramos Zach e Daisy fumando uns cigarros na frente do seu apartamento e seguimos andando. Zach nos contava sua história, de como tinha saído de São Francisco para vir morar em Nova York. Era engenheiro de som, fazia uns trabalhos na indústria do cinema e da televisão. Quando chegou por aqui, sonhava em montar uma banda mas não deu muito certo. Chegou a tocar em alguns lugares e a formar uma banda que durou seis meses até os integrantes começarem a ganhar dinheiro trabalhando em publicidade e largarem tudo.

Na nossa frente Daisy e Julia conversavam sobre cinema. Julia estava trabalhando como assistente de direção em um filme e Daisy já tinha feito alguns trabalhos como atriz, embora detestasse o meio. Segundo Julia me contou depois, Daisy chamava os atores de Modelos Corruptos. Ela achava que a maioria dos atores está mais preocupada com a aparência do que com o desprendimento de si mesmo para realizar o trabalho com sinceridade, estão mais próximos dos modelos posando sua beleza pra câmera. Não tive tempo de conversar com a Daisy sobre isso, mas fiquei curioso para saber mais do que ela viveu como atriz por aqui.

Enfim chegamos ao Gaslight. Ou o que foi o Gaslight. Hoje em dia o número 116 da MacDougal St é um prédio residencial. Nada mais. “Era no porão desse lugar que funcionava o Gaslight Cafe e aqui em cima o bar Kettle of Fish onde todos os músicos bebiam”, disse Zach. Uma porta de vidro com moldura de madeira e o número 116 estampado no topo. Não tinha nada mais desanimador do que isso. Era o lugar que eu mais esperava conhecer, justamente tinha deixado para o final, para comemorar, beber e sei lá o quê e demos de cara com nada. Julia perguntou se não podíamos entrar, se não tinha sobrado nada mais para ver, Zach respondeu que não, “Só restou a fachada mesmo.”

Julia olhou pra mim, “Está decepcionado, amor?”. Zach riu e disse “É isso aí, cara. Você está correndo por uma história morta. Está procurando Dylan nos lugares que ele não existe mais. O tempo muda, as coisas mudam. Ele mesmo anunciou isso logo lá no início”. Estávamos no meio de uma atmosfera frenética, todos os tipos de personagens passando e falando rápido. Um tipo intelectual de barba e óculos; um hipster de calça lilás, suéter verde e camisa xadrez; uma garota de cabelo azul com um crucifixo preso no decote; uma outra garota de terno cinza; um rapaz com os dentes da frente separados fumando um cigarro sem parar; todos como a gente, circulando por ali em busca de calor. “Eu fiz tudo isso que você fez”, Zach continuou, “fui pra lá e pra cá, tentei encontrar com ele quando ele fez um show aqui. Ficava sentado no Pussycat escrevendo… quer dizer, Panchito`s. Olha, nem o nome a gente consegue mudar. Eu ainda chamo esse prédio de Gaslight, mas nada disso é o que é”.

Na verdade eu estava cansado, mal tinha chegado de viagem e já tinha me metido nessa empreitada. Precisava acabar com isso pra poder descansar e começar tudo outra vez. Uma outra coisa. A excursão à procura de Bob Dylan havia chegado ao fim. A Julia tentou animar a situação, “Vamos comer e beber em algum lugar”. Agradeci Zach e Daisy pela companhia e perguntei se não queriam ir com a gente tomar umas cervejas. Eles aceitaram de imediato. Eu disse That`s it. Let`s get out of here.


























DIA 4

Voltamos pra casa de madrugada andando na noite fria pela nona avenida. É quase tudo o que lembro. Bebemos cervejas e comemos comida mexicana no Panchito`s. Zach pediu que eu fizesse uma tradução deste texto assim que ficasse pronto. A Julia que tem um inglês melhor que o meu prometeu traduzir e enviar para eles. Não lembro de como saímos do Panchito`s nem como nos despedimos dos dois. Mas lembro de mim e da Julia atravessando o frio da madrugada pelos quarteirões. E da Julia me perguntando de tudo o que fiz e vi qual foi a parte que eu mais gostei. E eu respondendo Voltar pra casa pra dormir com você.



Nova York, Março de 2014.



Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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ESTANDO LONGE DO FATO DE ESTAR MEIO QUE PERTO DE TUDO


Estou meio que perto de tudo. Estou na Ásia, estou no dia seguinte. Tenho o francês circulando em mim por amor, estou lendo Allen Ginsberg e achando que ele deu muito de beber a David Foster Wallace, de quem adapto o título deste texto. Estou dormindo quando em casa é dia e, antes de apagar essa luminária de luz branca e de me entregar à cama que revela a umidade de Java, a ilha onde estou – uma sensação de maresia constante em meio à fumaça produzida por 10 milhões de pessoas –, viajo pela América de Ginsberg, pela Downtown Frisco, os neons Johnny Walker, a rádio que dá notícias do Vietnã, o mesmo que vejo aqui nos uniformes bege a la Apocalipse Now.


JAKARTA

Estou perto do avião da Malaysia. Estou no meio de 17 mil ilhas. E elas não são todas. Estou cercada de água e também de motos. São 4 mulheres naquela, duas adultas e duas ainda crianças.

O cenário é cinza. Aqui não é nem velho nem moderno. Uma cidade que não entrega a idade. Mas com um nome que entendo como sendo feminino: Jakarta. Como as cidades invisíveis de Ítalo Calvino.

Estou longe desse fato de estar meio que perto de tudo. Estou também em lugar nenhum – em todo e qualquer tempo. É tudo uma questão de olhar para o calendário e o relógio global do iPhone.

Isso acontece comigo, e com qualquer um, tenho certeza. 
Querer muito encontrar alguma coisa e encontrar. Ou alguma 
pessoa. Encontrei Agnès Varda nessa temporada depois de 
muito querer. Concluí que qualquer pessoa ou coisa no 
mundo é encontrável, basta movimentar-se.

Estou perto e longe de todos ao meu redor. E tem um lugar invisível onde as nossas histórias se cruzam: no Bob Marley e no Che Guevara estampados, no paz e amor universal, no avião perdido que estamos acompanhando. No motivo de se estar aqui. Na condição de natural ou de estrangeiro, na de quem recebe ou na de quem paga. No mar.

O mar, que na França é uma palavra feminina. Ver o mundo, sintetizando, é uma questão de onde você nasce. A mar, em português, teria um pouco do cair de amor, que a gente traduz em paixão. Seria bonito. O planeta, sem gênero na língua inglesa, é entendido também como uma pequena mulher por Chris Marker, cineasta, fotógrafo, escritor, acumulador e um gênio em todas essas funções. Morreu em 2012 aos 90 anos, em Paris, e entre tantas coisas, deixou uma coleção de guias alternativos de viagem com impressões subjetivas para além do turismo: “Petite Planète”.

Tenho Marker em Jakarta comigo, num exemplar sobre a Grécia. Estava numa caixa de livros por um euro num sebo do Sena. Isso acontece comigo, e com qualquer um, tenho certeza. Querer muito encontrar alguma coisa e encontrar. Ou alguma pessoa. Encontrei Agnès Varda nessa temporada depois de muito querer. Concluí que qualquer pessoa ou coisa no mundo é encontrável, basta movimentar-se.


BALI

Estou em Bali. Um avião da Sriwijaya Airlines me trouxe até aqui na madrugada. Bali não é invisível, como as cidades de Calvino, nem cinza como Jakarta. Bali tem cor. Uma ilha, sem dúvida, feminina, como há de ser uma ilha. Aqui, ela tem tato nas mãos de balinesas massagistas. Elas existem, e em série, fora dos panfletos turísticos. Bali é do turista, essa condição que faz de uma cidade toda e qualquer, e de mim, ninguém e mais um.

Desembarquei no hotel e junto com meus companheiros de viagem (somos três, estamos viajando a trabalho) cumpri o fetiche de chegar à um paraíso tropical e receber massagem. É verdade, é possível tirar as malas das costas e mesmo antes de saber qual será seu quarto pelas próximas noites – um quadrado de luz fria e detalhes verdes na decoração, padronizada numa estética de bem-estar-bambu, na simplicidade contemporânea, na releitura boutique do que seria hoje um albergue da juventude, com exceção da trilha sonora eletrônica que toca em volume desagradável nas caixas de som dos corredores, fugindo à proposta spa, e que te faz pensar em Ibiza, sem mesmo nunca ter pisado lá – receber um tratamento que começa com lavagem de pés, chá, escolha da essência do óleo e segue coreografado por orientais vestidas em quimonos sóbrios. Uma hora e meia a 20 dólares com direito a apagar na sequência.

Casa de massagem em Bali.
As massagens estão anunciadas por todo lugar no centro de Bali, essa mistura de Guarda do Embaú adolescente com o mundo misterioso dos resorts de luxo. É sábado, 10 da noite, estou saindo para jantar com a companheira 1. Na rua, anúncios de comida se confundem com os de pequenos spas e centros de estética. Rapidamente entendemos que ainda é possível, àquela hora do final de semana, fazer uma massagem, mesmo que expressa. Optamos por fazer antes do jantar, estamos mais cansadas do que famintas.

O primeiro salão de beleza – um lugar que pode ser tachado de kitsch, uma espécie de cenário de filme asiático – está com todas as atendentes ocupadas. Uma outra placa está junto à porta de um restaurante e nos faz passar pela piada pronta de perguntar se ainda é possível fazer uma sessão. Recebemos um não escrachado e um cardápio de comidas. Explicamos que precisamos consertar as costas antes de comer e que vamos seguir nossa busca.

Poucos metros à frente, um salão em cores quentes nos recebe, e como de costume, mais através de contato visual, da comunicação gestual e menos pelo pouco inglês que se fala na ilha. Mostramos a que viemos apertando os ombros, o pescoço e a cabeça. E apontamos a opção no menu: 5 dólares e 30 minutos. Vamos nessa. Dessa vez é um homem e uma mulher que nos fazem a coreografia.

Balineses aprendem cedo a fazer massagem. Uma especialidade passada de geração em geração para ajudar na formação do corpo do bebê e no crescimento da criança, nossa tradutora explica. Ela tem certificado de massagista e ouviu ainda criança que tinha talento – uma mão direita pesada e idealmente forte.

Conhecedoras de camadas profundas do corpo humano, e por isso um tanto bruxas, as massagistas daqui são, ainda, um pouco ciganas: nos cercam na praia já pegando nos pés e nos ombros. Na areia, elas têm as mãos mais calejadas.

Restaurante em Jogjakarta
Embarco num voo da Malaysia Airlines e dessa vez os jornais na entrada do avião não estampam o acidente recente, como no primeiro trecho que fiz pela companhia. Chego em Jogjakarta. Jogja quer dizer boa, e karta quer dizer cidade – ensina o taxista. É o colorido mulçumano indonésio que eu ainda não tinha visto. A comida de rua, os mercados debaixo das marquises, as mesas no chão nas barracas de calçada, todas lotadas, oferecendo, em sua maioria, pratos com carne de porco. Passo menos de 48 horas nesta cidade.


SEUL

Acordo em Seul. Paraíso do wi-fi, império da Samsung, capital mundial da cirurgia plástica.

Seul de noite
Seul é o futuro. É o presente. São emoticons ambulantes em meio a uma cultura milenar da disciplina. A piração estética de meninas que desfilam o estilo mangá convivendo com o significado de cool, com o novo Soho, o contemporâneo de roupas bem-passadas de mulheres e homems estampando rostos auto-confiantes e bem sucedidos. O Kpop do sucesso Gangam Style e a música tradicional dos instrumentos desconhecidos do Ocidente. A primavera despontando nos sorvetes das formas e cores mais bizarras e a sedução da cidade que te pega pela boca, na comida pura, de ensinamento budista, originalmente servida aos reis.

Estou na beira do rio que divide a cidade, o sol está se pondo. Penso se é a primeira vez que vejo um pôr-do-sol no Oriente.


DALLAS

Treze horas e estou no Texas, onde faço escala, de volta ao dia 27 de março de 2014 que deixei em Seul. Chego antes do horário que parti. É como ganhar um dia na vida. Ou aceitar que o tempo, da forma como o contabilizamos é algo restrito. Que o tempo, enquanto espaço, é maior. Se é que isso não é uma asneira científica que estou cometendo agora. Estou longe do fato de estar meio que perto de tudo.


Clara Cavour é documentarista.
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*Todas as fotos: Clara Cavour

SOLIDÃO PREENCHIDA DE AFETO


Uma chave que só você tem. O silêncio quebrado apenas pelos seus barulhos. Nudez sem lugar certo. Bagunça que não atrapalha ninguém. Suas comidas, seus horários, seus objetos. Ninguém pra passar Gelol naquele ponto sacana das costas. Ninguém pra perguntar que cara é essa. Nada pra disfarçar, ninguém com quem esbarrar.

Criada numa família de pais casados, primogênita de dois irmãos, com dezessete primos muito próximos, estar sozinha nunca foi regra. Por isso causou espanto a decisão de inventar uma casa só minha – ainda que aos 26 isso não fosse propriamente uma precocidade. Eu continuava tendo pai e mãe, irmãos, namorado, mas na hora de dormir trancava a porta por onde ninguém entraria sem um convite, e nas manhãs de domingo podia passar horas sem ouvir minha própria voz, até que um telefonema ou música pulando da cabeça pra boca trouxessem a voz pra cena.

No fim e no princípio de tudo a palavra tão temida: solidão. Estar sozinho nunca foi sinônimo de ser solitário, disso eu nunca duvidei. Solidão preenchida de afeto: sempre desejei. No silêncio do meu mundo, aqui de onde escrevo, onde me curto e me cutuco, é que se dá a alquimia de ser pessoa humana. É onde planto o que colherei nas parcerias que cultivo. Me saber amada por gente que aqui não está, torna macia essa terra. A moderna tecnologia, as onipresentes telecomunicações engolem um bocado desse espaço mas não o matam – porque eu escolho que não. Tem livros e cadernos, canetas e tintas, bananas de isopor e bustiês amarelos ao meu redor. Sozinha crio novidades, ecoo sensações. Em conversas em voz alta, em língua estrangeira, ensaio sagazes discussões. Com tinta nos cabelos, cera nas pernas, pinça nos dedos, me seduzo no espelho.

No fim e no princípio de tudo a palavra tão 
temida: solidão. Estar sozinho nunca foi sinônimo 
de ser solitário, disso eu nunca duvidei. Solidão 
preenchida de afeto: sempre desejei.

Esse espaço tão quieto às vezes vira casa de dois. Aí é reaprender barulhos, horários, sabores. A beleza dos silêncios juntos. As falas bobas. A cópia da chave. Gelol sem esforço. O prazer de mãos se esbarrando no corredor. Noites acompanhadas. Palavras de olhos fechados. E quando o número fica ímpar de novo é recoisar tudo outra vez. Chaves, temperos, a cama imensa, o gosto do silêncio, buracos, iluminações.

Saber ser um é uma arte, e eu me esmero no seu aprendizado. Assim quando faço o convite, quando a chave gira na fechadura, é com o sorriso de quem se acha muito boa companhia. Amigos, amores, corpos e conversas vêm enfeitar a vida que caminha atenta sobre duas pernas roliças. Mão nos tropeços, salto nas alegrias é das lindas coisas das parcerias, mas é preciso saber a temperatura do chão da sua própria casa. Na minha quem entra é gente desnecessária, mas muito, muito desejada.



Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.
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*Imagem da capa: Gregory Crewdson