UM E-MAIL PARA REGINALDO PUJOL FILHO

Há 2 meses


————— Mensagem encaminhada —————
De: gabriel pardal
Data: 30 de abril de 2014 19:20
Assunto: Re: News
Para: Reginaldo Pujol Filho



Pujol, caramada

Como andam as cousas por aí? Hoje por aqui está caindo uma chuva chata e preguiçosa que somada aos 9ºC de temperatura faz com que seu corpo deseje ficar debaixo do edredon lendo um livro ou assistindo um filme até o dia dar um 360º de novo. Infelizmente não foi o que aconteceu comigo. Acabei de chegar de um almoço reunião com um produtor de televisão daqui. Almoçamos no The Dutch que fica há uns 45 minutos à pé de onde moro. Gosto de fazer tudo andando. Poderia ter pego um ônibus ou um metrô, mas prefiro andar. O incoveniente é que essa chuva atrapalhou os meus passos. É aquela coisa: chegar em casa, tirar a roupa molhada, trocar de meia, colocar pra secar e vestir um pijama quente. São 6h34 PM e ainda está claro lá fora. Deu uma vontade de passar num café e comprar um chocolate quente e um cupcake de banana com cenoura – entre todos os que experimentei esse é disparado o melhor –, mas com toda essa pré-produção (vestir dois casacos, calçar as botas, sair de guarda-chuva) dá uma preguiça danada.

Mas vamos ao que interessa. Vim para Nova York com o objetivo de estudar Creative Writing, Personal Essays e TV Writing. Além disso também vim planejando começar o rascunho de um romance que venho fermentando na cabeça há algum tempo. Minha namorada mora e estuda aqui, e matar a saudade dela, claro, foi o principal combustível deste voo. Caso você nunca tenha vindo pra cá antes, é tudo o que provavelmente você já sabe e/ou imaginou. A cidade pulsa. Ela é atraente, intuitiva e agregadora. Atraente porque sua arquitetura embeleza a paisagem, você pode passear pelas ruas sem se cansar. Intuitiva porque é fácil se localizar e se transportar pelos lugares. E agregadora pois são os estrangeiros que moram e trabalham por aqui que fazem a cidade funcionar. Por isso e por tudo mais, é muito inspirador sair por aí e ter uma conversa com estranhos, ou visitar um museu, uma galeria, ou simplesmente ficar sentado no parque olhando a estação brotar.

Logo quando cheguei aqui decidi conhecer os lugares por onde Bob Dylan passou com o objetivo de escrever um mega ensaio sobre o bardo e a cidade de NYC. O texto foi publicado no ORNITORRINCO e toda a experiência que tive em sua busca serviu para me estabelecer na cidade.

Os americanos desenvolveram uma série de manhas 
e truques e métodos para otimizar suas criações. 
Muito do que tenho aprendido nessas aulas é sobre 
criar uma disciplina para criar. Como preparar o terreno 
para que a inspiração faça o trabalho fácil. 

As aulas de escrita que estou fazendo se dividem em dois momentos. O primeiro é na sala de aula, com o professor expondo seu conhecimento, os alunos discutindo os temas e cada um contando suas experiências. O segundo momento é em casa, colocando em prática o que foi aprendido, fazendo o homework que deverá ser apresentado na aula seguinte. As aulas de Creative Writing são formadas por pessoas que trabalham em diversas áreas, escritores, jornalistas, designers, músicos, artistas plásticos, todos tentando impulsionar suas habilidades na escrita. É com toda certeza a que mais estimula a criatividade na invenção, pois essa mistura gera diferentes registros em literatura. Imagino que você saiba do que estou falando, o curso de Escrita Criativa é muito popular aí em Porto Alegre, não é mesmo? Bom, o gênero Ensaio é um dos meus favoritos, por isso decidi fazer o curso de Personal Essays. Como sou obcecado pelos ensaios do David Foster Wallace, Jonathan Franzen, John Jeremiah Sullivan e Geoff Dyer, todos eles americanos (exceto o Dyer que é inglês), acertei em cheio quando decidi estudar esse gênero por aqui. O curso trata de lhe ensinar a extrair o seu ponto de vista das coisas, como reconhecer a sua verdadeira opinião e colocá-la no papel de forma natural e pessoal. Como já faz um tempo que tenho sido mais um leitor de não-ficção do que ficção, essas aulas são as minha favoritas. Já o curso de TV Writing foi um tiro no escuro que deu certo. Não tenho nenhuma experiência em escrita para TV, mas com o sucesso das séries americanas, supus que seria uma excelente oportunidade. É uma das aulas mais surpreendentes. Saio com a cabeça pesando de novas informações. O professor é uma máquina, fala muito rápido, muito empolgado e engraçado, trabalha há 20 anos escrevendo para programas de TV e suas aulas são cheias de exemplos que todo mundo conhece, fofoca do meio, política dos produtores, é muito dinâmica e divertida.

Uma das coisas que posso tirar de letra da minha percepção sobre tudo isso é que os americanos desenvolveram uma série de manhas e truques e métodos para otimizar suas criações. Muito do que tenho aprendido nessas aulas é sobre criar uma disciplina para criar. Como preparar o terreno para que a inspiração faça o trabalho fácil. Esses estudos podem ser resumidos naquela frase – que alguns dizem ser do Albert Einstein, outros do Silvio Santos, e tenho a leve convicção de que é do Compadre Washignton – “A criação é formada por 10% de inspiração e 90% de transpiração”.

Esse conceito parece fazer brochar toda a graça do movimento artístico, mas é o contrário. Criar seu próprio método, ter a sua disciplina, estipular limites e prazos é o que faz a ebulição acontecer. Na criação artística a liberdade pode ser um problema, porque ela dissolve o que precisa ser contraído e concentrado.

Uma outra coisa que tenho percebido é uma certa vantagem que tenho em cima de alguns americanos com quem divido as salas de aula. Por ser brasileiro, latino-americano, falar português, manjar espanhol e ser fluente em inglês, pude durante toda a vida apreciar trabalhos originados em diferentes culturas, aumentando assim o meu imaginário, minhas referências. Os leitores daqui se importam menos com o que é produzido fora dos EUA, e muitos deles desconhecem totalmente (na última aula falei de Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca, ninguém conhecia). Parece meio desperdício de vida alguém não conhecê-los, nem nunca ter lido Cortázar, Borges, García Márquez, Fernando Pessoa, Machadão (citando os clássicos), e sem saber que agora estão vivos Gonçalo M. Tavares, Marcelino Freire, Paulo Scott, Alejandro Zambra, você. Tenho me destacado entre os meus colegas e credito esse resultado por esses motivos.

Bom, vou chegando ao fim. Desculpa te encher com esse maiúsculo e-mail, é que também tenho sentido falta de escrever em português. Tenho saudades de falar nossa língua, ultimamente só utilizo para poder falar com minha namorada, com amigos na internet e para cantar as canções tropicais. Aproveitei seu e-mail para na resposta poder escrever em português again. Não há língua mais gostosa de digitar nesse teclado.

Beijo no abraço


Gabriel Pardal
http://www.gabrielpardal.com
http://www.ornitorrinco.net.br


Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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SOBRE MULETAS E EPÍGRAFES

Há 2 meses


Nos últimos meses recolhi uns poucos temas bem específicos para dissertar sobre, por isso já começo esse texto pedindo perdão. Se não estou por aí a falar das maravilhas islandesas, por exemplo, provavelmente estou monologando sobre o “Casa”, meu próximo livro que já tem nome, mas ainda carece de alguns poemas para ficar pronto. Além do título e dos poemas faltantes, “Casa” tem também duas partes. A primeira está pronta e a segunda não. As duas partes, ao longo do processo de maturação do livro, que tem um ano e meio quase, ganharam epígrafes nesse período. 

Para melhor afeição ao vocábulo chave desse texto (tão caro ao mundo dos escritores), vale recorrer ao dicionário de termos literários para deixar de dúvidas. Pois bem, o dicionário explica que modernamente as epígrafes servem aos livros como “lema ou divisa”, e complementa: “A epígrafe obedece não só a imperativos da moda como a tendências ideológicas e subjetivas: de certo modo, basta o seu exame para nos fornecer uma ideia da doutrina básica de um poeta ou romancista, o seu nível cultural, etc.”

A tentativa de abarcar todas as possibilidades de casa, 
seja ela uma pessoa, um trem, uma cidade, um vulcão, 
uma ilha, um chope. É a percepção de que a casa é o mundo, 
de que o amor/casa é um conceito que se expande, feito o universo.

Pois. Meu primeiro livro que, pouco espertamente chama-se “O primeiro voo”, possui de epígrafe um pensamento anotado por Leonardo da Vinci sobre sua máquina de voar que nunca voou. Para meu azar, pouco tempo depois “O código da Vinci” virou um dos maiores best sellers mundiais, e meu primeiro livro, que já deixei desmamar por desgosto logo que saiu da gráfica, caiu no terrível limbo das tendências-ideológicas-e-subjetivas que nunca mais voltei a crer na vida. É bem possível que a epígrafe seja muito responsável por esse desamor com o livro, além dos poemas, claro. Mais recentemente, há dois anos, publiquei “Mulheres feias sobre patins”, um livro repleto de “kkk” e versos mais sarcásticos do que, digamos, originais. Por conter apenas 17 poemas, a função da epígrafe no “Mulheres…” foi bem sucedida, pois, sendo duas num livro tão pequeno, serviram (na minha cabeça) de desculpa para que o invisível talvez inexistente público pudesse, à sua vontade, abrir novas possibilidades de interpretação, o que garantiria um voo mais longo para esse projétil poético de pouco fôlego. Tomara. 


O leitor já deve ter percebido a falta de carinho do autor pelos seus livros. Sim, é verdade: não gosto deles e não é charme. Porém, com o “Casa” a coisa parece ter mudado de figura. O livro tem se tornado, ao longo da gestação, meu objeto de predileção. Tanto que, como disse no início, tenho monologado bastante sobre ele, o que é coisa rara pois não sou de falar por aí e muito menos de falar do que tenho escrito. E o carinho por ele é tanto que este texto é sobre as epígrafes que não estarão no livro. Veja só em que maçada você se meteu, leitor que nunca leu um verso meu.

O livro teria três epígrafes, duas para a primeira parte e uma, maior, para a segunda. Foi quando encontrei a terceira das citações que o projeto de enchê-lo com elas foi descartado. A poeta Matilde Campilho, esta força da natureza, comparável somente às quedas d’água da Islândia, me veio com a punchline demolidora. Mostrei a ela outro dia, como de costume, os avanços do livro, entre eles a nova epígrafe. Ela sentenciou: “é muito bonita a frase, sim. Mas acho que epígrafes são como muletas. E você já não precisa de muletas”. Não soube por um segundo se agradecia ou se chorava. Depois de pensativa pausa dramática, respondi: “Você tem toda razão”. Destituídas ou não, as três epígrafes são ainda as vigas, mesmo que ocultas, para que a casa fique de pé, mesmo com essa metáfora fajuta de casa e vigas. A primeira delas é da poeta paulista Julia de Souza que em março desse ano, 2014, publicou na revista Piauí o belo “Poema para esgotar a casa”. O poema inteiro é assombrosamente uma espécie de comentário – quase um prefácio – do livro, mesmo a poeta desconhecendo por completo o meu projeto literário. Entre as diversas passagens que remetiam as entrelinhas da primeira parte de “Casa”, como: as ambiências claustrofóbicas de alguns dos textos (“que a casa seja um aquário / seja um museu”), ou da única narrativa possível a ser feita é aquela a partir de dentro da casa (“já é impossível pensar / o mundo sem a mediação / da casa”) e até da relação da casa com a ruína (“é preciso interditar a casa / deixar que o mato a engula / cresça sem rodeios”), foi o verso posto entre parênteses, recurso frequente nos poemas da Julia, “(teria sido preciso esgotar o tema da casa)”, o mais acertado como primeiro mote do livro.

Por que “Casa”? A primeira imagem que me veio agora para explicar o título do livro é a do retorno de Ulisses para os braços de Penélope, para a casa, o leito dos dois feito do tronco maciço de uma árvore centenária, representando a solidez e a profunda raiz do amor entre eles. Acontece que mesmo depois dos dois best sellers que nunca deram dinheiro para Homero, diz o mito – a revista de fofocas de então – que Ulisses e Penélope, como qualquer casal do século XXI, também pediram arrego e se separaram. O que foi feito daquela cama feita de tronco maciço? Dos móveis da sala? Como dividir de forma justa tantos jarros gregos? Ninguém sabe, ninguém contou. Como diz a Julia, teria sido preciso esgotar o tema da casa, mas não deu. Os mitos gregos, despedaçados, não deram conta do recado. O que nos chegou foi o rumor da vida de solteiro de Ulisses e Penélope disperso entre escritos milenares com qualidade inferior a homérica. Miriam Sutter, minha professora de cultura greco-latina da graduação, deve saber. Eu talvez soubesse, não sei mais. 

Essa incapacidade de contar os capítulos finais de uma casa, o espaço entre o abandono dela e a transformação desse abandono em ruína e dessa ruína em patrimônio imemorial – tal como o que nos sobrou da arquitetura grega – é um dos pontos de Roland Barthes no seu inescapável “Fragmentos de um discurso amoroso”. Lá, ele diz:
Não posso eu mesmo (sujeito enamorado) construir até o fim minha história de amor: sou seu poeta (o recitante) apenas quanto ao começo; o fim dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; a eles cabe escrever esse romance, narrativa exterior, mítica.
Pois bem. A primeira parte de “Casa” corre afobada para dar cabo à história dessa casa do poema, dessa casa mítica, vamos dizer. Há insinuações estranhas de que o final está perto, mas a coisa termina insuficiente. Surge então a necessidade de evocar o autor da segunda epígrafe, que acompanharia o verso da Julia de Souza nessa primeira parte: senhoras e senhores, Albert Camus. O argelino em 1937 escreveu a seguinte passagem em um de seus cadernos/diários:
Aedificabo et destruam [Edificarei e destruirei], diz Montherlant. Eu prefiro: Aedificabo et destruat [Edificarei e que se destrua]. A alternância não vai de mim para mim mesmo. Mas do mundo para mim e de mim para o mundo. Questão de humildade.
Deixando de lado a falsa humildade do ganhador do prêmio Nobel, percebe-se que Camus pensa da mesma forma que Barthes em relação ao perecimento da casa/amor: o que vem depois não diz respeito a quem construiu, pertence aos outros, ao mundo lá fora. Edificarei e que se destrua. Para dar continuidade a esse roteiro possível do meu livro de poemas, agora com a casa da primeira parte já demolida, foi necessário não confrontar as observações de Barthes e Camus, não criando um trajeto funéreo de um eu lírico carpideiro a espera milenar da transformação da casa abandonada em ruína protegida pela Unesco. A segunda parte tornou-se uma diversidade de começos e tropeços, uma tentativa de abarcar todas as possibilidades de casa, seja ela uma pessoa, um trem, uma cidade, um vulcão, uma ilha, um chope. É a percepção de que a casa é o mundo, de que o amor/casa é um conceito que se expande, feito o universo. E existe uma beleza devastadora nesse lugar total que acaba sendo lugar nenhum, que a terceira e última não-epígrafe do livro diria:
But she is sitting in my place / devastating beauty in my place / and I’m absent from the place I ought to be [Mas ela está sentada no meu lugar / uma beleza devastadora no meu lugar / e eu estou ausente do lugar em que deveria estar].
Esses três versos são da canção “The Heart Knows Better” do disco Blemish de David Sylvian. Um dos meus discos prediletos – e preciso dizer, um dos melhores discos feitos na década de zero –, Blemish, vejam só, foi composto e gravado durante o mês em que Sylvian desmontava sua casa, depois de um longo relacionamento com a poeta, compositora e fotógrafa Ingrid Chavez. Estar ausente do lugar em que se deveria estar é estar em todos os outros lugares. Retomando a querida Matilde, não há muletas possíveis que acompanhem tamanha expansão. As epígrafes são os sinais espalhados por todos esses outros lugares. Toda casa será ruína. Toda ruína conta o início de uma história.


Mariano Marovatto é poeta, compositor e músico.
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BANANA, FUTEBOL E POESIA – POR UMA ERÓTICA DO TEXTO

Há 2 meses


Nessa última semana o assunto foi a banana. No campo, na boca, na camisa, no instagram. Lançaram uma banana no Daniel Alves e ele, de bate pronto, catou, descascou e comeu. Um esporte vive também desses gestos que acontecem fora do jogo e dão sentido ao lúdico que está dentro da palavra jogo. Ao comer a banana, jogada pelo racista que o chamava de macaco, Daniel Alves realiza um gesto poético de muita potência, antropofágico, querendo ele ou não. Sua declaração, ao final da partida, não foi uma citação de Oswald de Andrade, foi apenas: “Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados.” Seu gesto foi bem mais profundo que suas palavras e bem mais transformador também. Não tivesse comido a banana teria o torcedor racista do Villareal sido descoberto? Teria ele sido banido pra sempre dos estádios e do quadro de sócios do clube?

Sempre acreditei que a poesia é mais potente do que o discurso direto. Mesmo que nada tivesse acontecido com o torcedor idiota que lançou a banana, o gesto de Daniel Alves já teria sido uma sapatada de fora da área na gaveta. Esse gesto tem tudo a ver com a história do Barcelona, o Camp Nou (campo novo) deveria se chamar campo da resistência, pois foi um dos poucos lugares da Espanha onde se podia falar catalão durante a longa e tenebrosa ditadura do general Franco. No fim do jogo, Neymar, companheiro de clube e parça do Daniel, postou uma foto com seu filho David Lucca. O pai segura uma banana de verdade e o filho uma de pelúcia. A hashtag #somostodosmacacos bombou.

Daniel Alves comendo a banana jogada no campo
Os elogios vieram, mas as críticas vieram aos montes também. Alguns diziam que comer a banana não adianta nada, que escrever #somostodosmacacos é uma babaquice e que nada disso é uma porrada no racismo de plantão. Não vou perder meu tempo falando da capitalização do pessoal que fez a camisa em cima da história e já está vendendo por uma grana num site. Acho isso por demais estúpido e desmobilizador. Mas as críticas que vieram, mais ao Neymar que ao Daniel, me deixaram um pouco surpreso. Surpreso pela falta de capacidade de interpretação poética de todo o ocorrido.

Foto no Instagram do Neymar
Quando falo de interpretação poética não falo de flores, crepúsculos e virgens cismando de amores, falo de uma erótica do texto, algo que transcende a comunicação direta da linguagem e entra em nossas cabeças por caminhos e frestas destravados de nossos preconceitos e armaduras cotidianos. Quando Neymar diz #somostodosmacacos ele não está sendo racista e sim nos colocando a todos dentro de uma mesma categoria, nos (con)fundindo, eliminando diferenças. Ao mesmo tempo incorpora o que o racista chama de xingamento transformando-o em símbolo de luta. Não foi assim que a torcida do Flamengo fez com o urubu? Ou com a música “Ela, ela, ela silêncio na favela” que virou “festa na favela”? Não foi incorporando o pó de arroz ao seu ritual de arquibancada que o Fluminense jogou fora seu passado racista? As torcidas de futebol, quando conseguem se afastar da violência, produzem incríveis peças poéticas, principalmente quando antes aquecidas pela velha arquibancada coletiva de cimento do velho Maracanã, e menos agora nas cerceadoras cadeirinhas individuais de garrafa pet reciclada da nova arena.

Otavio Paz, no seu livro “A Dupla Chama”, traça uma diferença entre o ato sexual e o ato erótico. O ato sexual é o sexo feito entre um homem e uma mulher com o objetivo da procriação. O ato erótico é o sexo pelo prazer, sem necessidade da reprodução como um fim, podendo ser praticado por um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres, por um coletivo numa suruba de delícias ou até entre espécies diferentes. Assim também se dá com a linguagem que, a princípio, existe com a finalidade de comunicar. Mas a poesia aparece como o erotismo da linguagem, podendo servir a esse fim, mas sendo muito mais o prazer da língua do que seu uso utilitário. Ironicamente é justamente neste campo da erótica do texto que conseguimos transcender a comunicação direta e falar muito mais do que conseguimos num blá, blá, blá como esse daqui.

Sempre acreditei que a poesia é mais potente do que 
o discurso direto. Mesmo que nada tivesse acontecido 
com o torcedor idiota que lançou a banana, o gesto de 
Daniel Alves já teria sido uma sapatada de fora da área na gaveta.


Foi assim com Dani Alves que ao comer a banana realizou uma performance poética que emasculou o racista, entortou os zagueiros e derrubou o goleiro do preconceito, deixando ele na cara do gol para, como um dia fez Garrincha, dar meia volta só pra ter o prazer de driblar de novo todos esses idiotas da objetividade.

O xingamento “macaco”, que envolve o lançamento de bananas, vem de uma ideia ultrapassada. A teoria da evolução segundo Lamarck é diferente da de Darwin. Para Lamarck o homem é descendente do próprio macaco e o africano, negro, uma espécie de elo entre macaco e um europeu super evoluído. Darwin inspirou-se em Lamarck, mas jogou por terra essa ideia e construiu a imagem de um ancestral primata comum que se ramificou em diferentes braços de onde saem os homo sapiens e os diversos macacos que existem por aí. Com isso Darwin nos diferencia no presente, mas nos remete a um ancestral igual. Talvez a hashtag mais correta, darwiniana, fosse #somostodosprimatas. Mas aí a estratégia de incorporar o xingamento, feita mesmo que sem querer por Neymar, não teria efeito: #somostodosmacacos no sentido de que somos todos iguais, somos todos o macaco original do qual viemos, a trilobita primeira, a poeira de estrela inicial. TAMO JUNTO NESSA PORRA PARCEIRO!

Apesar disso somos seres complexos cheios de diferenças marcadas nos olhos, nos cabelos, nas peles. Diferenças que podem se unir, misturar-se, recombinarem-se em infinitas formas e tonalidades numa erótica da vida. Infelizmente ainda não somos todos macacos. Há os que enxerguem essas diferenças como algo que nos deprecia. A esses o meu mais profundo repúdio. Aos que devoram o preconceito com a potência do Eros da poesia minha mais profunda admiração.


Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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O FETICHE DE WALL STREET

Há 2 meses


A cena de abertura de O Lobo de Wall Street exibe um comercial das Stratton Oakmont Inc. que traz uma importante chave de decifração do malabarismo a que Martin Scorsese submete o seu último filme. Nesse comercial, a placa de Wall Street, a famosa rua da ilha de Manhattan em que está a principal bolsa de valores do mundo, precede um discurso sobre a selva que é o mundo dos negócios. O narrador guia o espectador ao dizer: “Touros, ursos, perigo a todo momento.” O comercial das Stratton Oakmont promete guiar os compradores da bolsa de valores pela selva financeira a partir de seus princípios de estabilidade, integridade e orgulho, enquanto um leão, o majestoso rei da selva, caminha deixando um rastro, uma promessa de ordem.

Repentinamente, porém, o espectador é remetido ao universo caótico das Stratton Oakmont, com um lunático Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) berrando alucinadamente enquanto anões são arremessados em um jogo de apostas. A sequência duplamente surrealista do filme, que traz um leão no comercial da empresa, e um anão arremessado em meio a um dia de trabalho rotineiro, denuncia que este não é um filme exatamente sobre a bolsa de valores. É claro que seu conteúdo material, a massa factual que manipula, diz respeito a esse universo. Mas o que o filme de Scorsese tenta apresentar diz respeito a um fenômeno mágico moderno. Quando Jordan Belfort pede para que algum de seus funcionários lhe venda uma caneta, ou quando pede, na última cena do filme, para que os ouvintes de sua palestra façam o mesmo, ele denuncia esse fenômeno e de onde ele emana. Trata-se do fetiche da mercadoria.

Da primeira vez que usa a expressão “sell me this pen”, venda-me esta caneta, a natureza mágica do fetiche se expõe. Ela sucede um diálogo em que Belfort explicava que todas as pessoas do mundo querem ficar ricas, enquanto um de seus empregados argumentava que vendia maconha para um homem que só queria fabricar móveis. Que um homem queira apenas fabricar móveis, isso é incompreensível para Belfort. Todas as relações mágicas têm por natureza tamanha autoridade da ilusão, que é impossível compreender que algo de diferente exista. Belfort não pode compreender que haja gente que não queira ficar rico. Isso não é exposto de maneira moral por Scorsese: existe um tipo de relação social que engendra certa concepção de mundo (e é exatamente por isso que não há uma mensagem moralista no filme que diga: “veja como Wall Street é cheia de babacas e imorais”, ou “a natureza do homem é de lobo do próprio homem”, embora haja tanto desentendimento sobre o filme, quando dois lados de uma discussão infrutífera argumentam se o filme é pró ou anticapitalista). A natureza de qualquer fetiche é um véu. Ele oculta todas as relações que dão origem a um fenômeno; apenas no ocultamento é possível a emergência de um fetiche. Deste véu emergem tanto as imagens irresistíveis da “mulher inacessível”, que está por trás de toda a história da dominação patriarcal, e que resulta na abundância de fantasias sexuais femininas em sexy shops ou em novelas televisivas, como as embalagens estetizantes dos diversos produtos nas vitrines que fazem com que eles sejam perseguidos para além de suas qualidades ou das suas possibilidades de uso. O filme de Scorsese serve-nos para que lancemos um olhar mais profundo sobre o Black Friday e sobre as zonas de prostituição – e sobre a sugestiva culminância do Red Light District.

Não é por acaso que a prostituta é uma figura central no filme. Prostituição, drogas de origem industrial e dinheiro são um trio inseparável na arquitetura cinematográfica do Lobo. Na sequência “desmistificadora” da personagem de Belfort há uma cena em que essas três figuras se alternam de maneira significativa. Num primeiro momento, o corretor está com uma prostituta, a mercadoria encarnada, mas não a está penetrando; ao invés disso, usa seu ânus como suporte para se entorpecer. Em seguida, fala de sua relação com a droga, vestido em um terno Armani: “Sim, em uma base diária, eu consumo drogas o suficiente para sedar Manhattan, Long Island e Queens.” Após descrever as drogas que toma a cada momento do dia (todas de origem industrial – as drogas industriais são contemporâneas do auge do capitalismo no século XIX), fala de seu principal vício: “De todas as drogas sob o céu azul de Deus, há uma que é a minha favorita absoluta”, e, enquanto bate uma carreira de cocaína, prossegue: “Vê? O suficiente dessa droga vai torná-lo invencível, capaz de conquistar o mundo e extirpar seus inimigos.” E explica que não está falando da cocaína. Ele abre o canudo com que cheirou a droga, e exibe uma nota de cem dólares: “estou falando disso.”


A maior parte da autoapresentação de Belfort é exibida no estilo dos selfmade men. Um Leonardo DiCaprio bem vestido, penteado e confiante é exibido sempre caminhando em direção à câmera, explicando suas qualidades e sua história, a servir de exemplo para seus espectadores. O formato acolhido pela estética dos livros de autoajuda é torcido (ou melhor, revelado em sua mais profunda verdade) por Scorsese para mostrar o quanto há de destruction of the other em qualquer relação mercadológica. As Stratton Oakmont, entulhadas em processos e sob investigação constante do FBI por suas ações ilegais, não devem ser compreendidas como um acidente na história divina do deus mercado: elas são o seu modus operandi.

Os desígnios do deus mercado são inescrutáveis. Não tente compreender, Belfort adverte. Quando precisa explicar alguma manobra que fez para quebrar as leis estatais e faturar milhões com a venda ilegal de ações ou qualquer outro procedimento (não tente compreender!), ele avisa ao espectador para que não se preocupe em entender: faturar milhões ultrapassa qualquer entendimento. É claro, o deus mercado é incompreensível para quem está de olho nas cifras. Para manipular a mercadoria como objeto poético em seu filme, e o fetiche que dela decorre, Martin Scorsese não poderia usá-la como objeto direto; nem poderia, pois ela não é o objeto em si, não teria como mostrar diversos consumidores na fila pelas últimas novidades em um shopping center qualquer. Pois é da natureza da mercadoria ocultar as relações sociais que a produziram. Sua culminância são os números da bolsa de valores, que são negociados como números, mas que flutuam de acordo com uma série de relações humanas, e não com uma matemática pura aplicada.

Apenas ao esconder as relações humanas, a mercadoria consegue estetizar a vida dos seres humanos. Ainda em princípios do Lobo, Belfort explica que aos 22 anos teve uma experiência com a bolsa de valores de Nova York que mudou sua vida. Principalmente após a conversa com o corretor Mark Hanna. A fala do corretor ao aconselhar Belfort sobre o trabalho na bolsa é reveladora neste sentido. 

Segundo Hanna: ”Ninguém sabe se uma ação sobe ou desce ou se a merda fica variando em círculos. (…) É tudo falso, pó de fada, não existe. Nunca se materializou, ou seja, não importa, não é carga elementar, não é real! Não criamos nada, não construímos nada. Então, se tem um cliente, que trouxe a ação em 8 e agora está em 16, está feliz pra caralho, quer descontá-lo e liquidar, levar a grana pra casa… Você não deixa ele fazer isso. Porque isso vai tornar a coisa real.”

Hanna introduz Belfort no reino mágico da mercadoria. A música que improvisa ao ensinar-lhe o caminho das pedras – tomada por um observador desatento como puro descontrole emocional – representa um passo a mais nessa estetização. Sai da argumentação racional do funcionamento da bolsa para “tornar-se um hábito”, como explica Hanna. A mesma canção é entoada anos mais tarde por Belfort para embalar seus funcionários, enquanto discursa tão furiosamente como um Führer. O ponto de encontro entre capitalismo e fascismo é desnudado por Scorsese a partir da estetização da vida promovida pela mercadoria; estetização tão característica do fascismo e tão aparente no Terceiro Reich. Ao discursar para seus funcionários eufóricos, Jordan Belfort pode ser comparado a Adolf Hitler, não no sentido de culpabilizá-lo moralmente pelos escândalos das Stratton Oakmont, assim como não deve recair sobre Hitler a responsabilidade única sobre o Nazismo. Se Jordan Belfort não existisse, outro ocuparia o seu lugar, assim como o Führer é a parte menos trágica do Terceiro Reich.

A história de Jordan Belfort contada por Scorsese não fala de um homem descontrolado, imoral ou afetado. Não fala de um sacana que quer ferrar a todos. Não fala sobre um corretor da bolsa de valores. Jordan Belfort é um cavalo de santo, por através de quem fala a própria mercadoria, assim como através de Hitler falavam as relações de produção capitalistas desesperadas por se defender de uma crise sem precedentes, mimetizando os anseios mais profundos e contraditórios do povo alemão da meia noite do século.


Rafael Zacca é poeta, crítico literário e mestrando em Filosofia na UFF.

A ESPUMA DOS DIAS

Há 2 meses


O filme “A Espuma dos Dias”, de Michel Gondry (“L’Ecume des Jours”, 2013), faz referência a liquidez da pós-modernidade já no título. A adaptação do livro surrealista de Boris Vian para as telas explora o universo das metáforas com todos os recursos que o audiovisual oferece. O filme se divide em duas partes, a primeira sobre o romance e a segunda sobre a degradação da vida (não só através da morte).

Colin é um jovem despreocupado, herdeiro de uma fortuna com a qual sustenta seus pequenos caprichos sem que precise trabalhar. Ocupa-se em invenções, conversas filosóficas e fartas refeições, na companhia de seu amigo Chick (leitor assíduo do fictício Jean-Sol Partre – em alusão a Sartre), e seu administrador-conselheiro (e cozinheiro, nas horas vagas) Nicolas. Ao descobrir sobre as aventuras amorosas de seus companheiros, decide que o elemento que falta em sua vida é o amor. A busca por uma parceira parte de uma decisão (e não de um sentimento), ao perceber que seus amigos estão um passo a frente nesse quesito: um desejo lhe foi socialmente introjetado. Com o auxílio de Chick e Nicolas, e algumas convenções sociais, apaixona-se por Chloé, com quem explora uma romântica e metafórica Paris. Casam-se – após alguns obstáculos implantados por uma gananciosa igreja – e partem em uma animada viagem de lua de mel, na qual Chloé começa a desenvolver uma doença rara: o nascimento de uma flor de lótus em seu pulmão.

A partir de então, o filme passa a ganhar novos aspectos, desenvolvendo-se em uma atmosfera gradativamente opressora. Não só a vida de Chloé vai se esvaindo, mas a de todos ao seu redor. Colin vê-se obrigado a trabalhar, muitas vezes em condições degradantes, para financiar o tratamento indicado pelo médico que, encantado pela beleza de Chloé, não demonstra muita confiança e certeza em seu diagnóstico. Chick desenvolve um vício incurável em Partre, gastando todo o seu dinheiro em livros do autor e drogando-se com as palavras do filósofo (literalmente, através de livros no formato de pílula e outros aparatos). Sua namorada frustra-se com essa obsessão e o casal encontra a morte após uma série de eventos envolvendo uma polícia invasiva e despreparada, e uma arma arrancadora de corações. Ao final, Chloé morre tomada pela flor em seu pulmão, em um apartamento descuidado, sujo e apodrecido, cujos espaços foram estreitando-se ao longo da doença, acompanhando o fim da vida. O filme termina em preto e branco.

As metáforas que inicialmente acrescentam um ar de fantasia ao romance – como na felicidade do casal que se encontra “nas nuvens” em um passeio de teleférico no primeiro encontro, e em sua saída flutuante da igreja após o casamento – refletem um negativismo existencialista (típico de Sartre, a quem se faz referência ao longo de todo o filme) na segunda parte da obra – por exemplo, no desgaste do conselheiro e ajudante Nicolas durante a doença de Chloé: o amigo envelhece fisicamente e seu passaporte passa a registrar alguns anos a mais.

O filme é permeado por fortes críticas sociais, mais claras na segunda parte. Há uma igreja que se aproveita do desejo de seus fieis de cumprirem todos os rituais e convenções sociais (casamento, velório). O medo imposto pela religião submete o indivíduo aos abusos dessa igreja, mais interessada no dinheiro do que na propagação da fé. Há uma polícia que reprime com arma de fogo qualquer atentado à ordem, como a conturbada entrada de intelectuais na palestra do filósofo Partre. Há patrões mais atentos à produtividade do que ao bem estar de seus funcionários. E, finalmente, há o paradoxo da banalização da morte, desde o início do filme, em que figurantes morrem sem que seja dado um mínimo de atenção ao fato: uma improvável fatalidade na pista de patinação, ou um acidente de trabalho em que um dos funcionários entorpecia-se e distraia-se do gerenciamento das máquinas. Isso reflete um descaso do sujeito individualista com o Outro e uma vulgarização da morte, percebida nessa sociedade como um evento comum, até que bata a sua porta, tornando-se então absolutamente aterradora. Quando a iminência da morte atinge Chloé, a vida de todos ao seu redor começa a desandar, inclusive do pequeno rato que habita a casa de Colin.

Gondry cria ainda um cenário inusitado onde a própria narrativa é escrita. Máquinas de escrever deslizam por longas mesas passando por diferentes funcionários que digitam, indiferentes, frases da história que estamos assistindo. A tentativa de intromissão do personagem nesse espaço é repreendida e ignorada, pois o curso de sua vida já está traçado. O indivíduo é então o sujeito de uma história, e não de sua própria vida, história essa desde o princípio amarrada à sociedade e suas patologias. Uma espécie de determinismo (ou o próprio existencialismo) perturbador, para o qual Gondry nos chama a atenção, numa possível tentativa de nos libertar.


Nina Solo é pós-graduanda no curso de Jornalismo Cultural da UERJ