BARREIRAS PÓS-MODERNAS

Há 3 meses


Caminho pelas ruas de Curitiba e sempre observo as construções, os prédios mais famosos, aquele giratório que não deu muito certo, mas ainda esperamos que dê. Afinal, um prédio tão caro sem habitantes é melancólico, mas os apartamentos irão custar uma fortuna e não vai deixar de ser melancólico. Eu não vou morar lá, também, não sei se queria, nunca quis morar naquele bairro, acho que a minha história não é giratória. Ficaria tonta ao mudar para o outro lado da cidade, aqui eu tenho a minha infância, o melhor lugar sempre.

Deixo a minha casa para viajar, como diria o título daquele filme, “Viajo porque preciso, Volto porque te amo”. Às vezes preciso sair para sentir saudades dos amores que deixei na rotina que frequentemente reclamo, mas a rotina é a vida que escolhemos. Nas novas cidades que visito entro em conflito com a arquitetura, ir para Balneário Camboriú em Santa Catarina e ser rodeada por prédios padronizados, chegar em São Paulo e achar tudo cinza, talvez por ter internalizado a sua fama de cidade cinza ou por sentir falta de árvores pelas calçadas da Avenida Paulista. Para o Nordeste eu nunca fui, sempre imaginei as praias e a alegria carnavalesca, assim como devem imaginar Curitiba como fria e pouco acolhedora, temos fama de não dar informações a estranhos, não sei se isso é verdade, assim como o Nordeste certamente não é só praia e carnaval. No filme “O Som ao Redor”, Kleber Mendonça Filho critica a arquitetura que tornou Recife uma praia com grades, a classe média por medo, se acovarda de si mesma dentro de edifícios de ‘segurança máxima’, afastando-se de todos para proteger-se de um perigo abstrato. 

O filme “Medianeiras” registra o distanciamento do ser humano por meio das construções, as paredes crescem descontroladas e imperfeitas, no ritmo que nos isolamos. As irregularidades nos padrões das construções evidenciam a irregularidade humana, as desigualdades estéticas (sociais) e éticas (emocionais). Passamos a viver como inquilinos, a cultura do aluguel temporário que dura mais que o esperado. Passamos a gostar da solidão estipulada pela cultura da boa vizinhança de não ser invasivo, um bom exemplo da fama curitibana.

Com o crescimento urbano, que não significa crescimento humano, recorremos à internet, lá não há paredes, bastam cliques e estamos com quem queremos, não precisamos enfrentar o trânsito, tão caótico quanto as paredes cinzas que observamos enquanto esperamos o sinal abrir. Não precisamos encarar o mau humor, todo mundo online esbanja simpatia, mas causa insegurança quando não responde imediatamente a sua piada sobre qualquer assunto aleatório. No bate-papo falamos de qualquer coisa, ninguém consegue ver nossa cara de idiota com medo que o assunto não interesse a ninguém. Na internet a falta de sintonia entre os diálogos se resolve com hahaha, hehehe e seus derivados que demonstram a singularidade de cada um, hahaha é espontâneo, hehehe é sacana, rs é sem sal.
No filme argentino, Martin trabalha construindo sites, Mariana é arquiteta: arquitetura online x arquitetura concreta. Após dois anos sem sair de casa, distraindo-se com todos os produtos construídos com pixels, Martin inicia sua jornada pela cidade, apenas a pé, fotografa a cidade, a foto é estar e não estar. Mariana decora vitrines, onde se sente em um lugar que não está nem dentro, nem fora, um espaço abstrato. 

Mesmo quando deixamos o mundo online, um mundo em que observamos coisas que acreditamos fazer parte de um mundo subjetivo criado pelos nossos desejos, ainda buscamos formas de nos mantermos observadores, a aproximação com a vida é intimidadora quando podemos nos aproximar do mundo protegidos por telas, vidros, paredes, lentes… 

A personagem argentina que não consegue encontrar Wally em apenas um dos seus cenários, a cidade, desenvolve uma fobia de multidões, pois a sensação de ser alguém perdido entre milhões causa-lhe angustia existencial, imobilizando-a, silenciando-a, como seus manequins na vitrine. Estaremos todos vivendo em vitrines? Em nossa página do Facebook, em nossos carros, nas calçadas, nossos trabalhos e nas reuniões entre amigos, imobilizados, sendo um Wally que nunca é encontrado, por isso sempre sozinhos, perdidos, esperando por nossos observadores? 

Caminhamos pelas ruas procurando nosso Wally, esperando ser o Wally que alguém procura. Continuamos a observar o mundo e a viver nele para que sejamos vistos e pertençamos à vida de alguém, também, perdido entre os prédios que cobrem o mar de Buenos Aires, Recife, Camboriú ou somente a distancia de um clique que separa aquele bate-papo com o seu amor na era virtual.


Aline Vaz é professora e escritora.

A ARTE DE DISTRIBUIR ELOGIOS

Há 3 meses


Ontem eu fui à Quinta da Boa Vista elogiar estranhos. Fui convidada para participar de um evento que tinha como objetivo levantar a moral do carioca. Relutei, pois ando triste com a cidade, desgostosa. Mas depois refleti melhor e tive a ideia do Gniyllub, que é bullying ao contrário, e meu desejo era elogiar as pessoas que estavam ali em pleno parque a passeio. Eu observaria, me aproximaria e falaria algum elogio, como incentivo, psicológico ou estético.

Mas não foi tão fácil quanto parecia na minha mente. Ao chegar no local, onde sempre fui, vou e irei, alguma aflição tomou conta de mim. “E se me acharem maluca? E se me acharem tarada?” Meu gigantismo me confere uma estrangeirismo, e ainda mais com a blusa do evento, eu realmente parecia uma gringa, mas isso me defendia, de alguma maneira. Comecei com as crianças, mais puras e livres. “Que linda você, que cor de unha linda você escolheu”. As crianças sorriam bocarras pra me derreter e uma delas agradeceu com muita vontade.

É raro vermos pessoas sozinhas na Quinta, eu era um E.T ambulante, observando as famílias nos seus piqueniques. Sei que subo num palco, sei que sou artista, mas acreditem, também sou tímida. Não a timidez egoísta de “Oh, o que eu tenho a dizer é tão importante que nem consigo falar”. Não é isso. Sou meio cara de pau, espontânea e às vezes falo coisas sem pensar direito e pago por isso, pro bem e para o mal. Mas minha timidez mora no campo do desconhecido. Eu tinha vergonha de perguntar preço da roupa numa loja, porque não conheço a vendedora, porque não sei como ela vai ser. Com amigos, ok. Com estranhos, o bicho pega. E lá estava eu, sozinha, a gringa, a louca, a tarada, caminhando pela Quinta. Adolescentes são difíceis, mesmo com elogios, estão sempre tão armados e preparados para o ataque. Vi uma menina jogando bola. Ela estava de maiô e short. Comentei “Bonito o seu maiô”, ao que ela disse com voz alta “Maiô não, colega, isso aqui é um BODY”. Oh, pensei, mil perdões pedi e continuei a caminhada, mas a ouvi contando para amigos que “aquela mulher ali achou que isso era um maiô, pffff”.

Eu agora era “aquela mulher” e para minha surpresa observei uma louca falando sozinha. Reconhecemos os loucos pelo destaque, e isso é tão bonito e triste ao mesmo tempo. Pensei “Vou elogiar a louca, o olho dela é bonito, vivo”. Mas antes de falar qualquer coisa, a louca disse “Oi, linda”, para mim, me deixando em suspensão. Éramos da mesma gangue, concluí. A Quinta da Boa Vista reúne mais gente do subúrbio e da zona norte. Uma pena que algumas pessoas da zona sul tenham medo ou preconceito. O lugar é lindo num grau máximo de beleza. E o subúrbio ainda conserva uma característica de cidade pequena que eu amo que é dizer “bom dia” ou “boa tarde” para desconhecidos. Então enquanto caminhava ontem, observando as pessoas, antes de elogiá-las, eu era flagrada com uma simpatia instantânea. “Boa tarde!”. Às vezes isso me quebrava e eu só sorria, sem elogiar, mas n’outras vezes isso me fortaleceu para ter a coragem em dizer que “você fez uma manobra muito legal, você é bom nisso”.

O dia estava dilacerante de bonito, minha existência se enobrecia não por vaidade, mas um altruísmo puro foi me abraçando. Eu nem existia, meu cabelo não existia, minha altura. Nada. Eu era um hidrante ambulante. Colocando elogios pra fora. Fui ficando emocionada, pois sou assim e estou numa fase mais ainda. Vi um casal enroscado na grama e tinha percebido ser difícil elogiar um casal. O medo em parecer cantada me impedia e não queria perturbar a paz de ninguém, mas nessa hora minha emoção me pareceu tão pura que pensei que daria certo. “Vocês estão muito bonitinhos deitados nessa grama”, disse. Eles riram e se abraçaram ainda mais forte. Como se minha frase confirmasse o amor deles, um breve reconhecimento público os animava, eles não precisam disso, mas isso era quente, isso era gostoso de ouvir, riram, se abraçaram ainda mais, agradeceram. Eu não era louca, eu não era tarada.



Para minha surpresa observei uma louca falando sozinha.

Reconhecemos os loucos pelo destaque, e isso é tão

bonito e triste ao mesmo tempo.


Eu queria que os elogios não fossem aleatórios. Não queria sair chamando todos de lindos. Sou específica. Sou do detalhe. Vi uma adolescente de cabelo azul, não achei bonito, não é da minha natureza. Nunca pintei o cabelo e não tenho nada contra quem pinta, mas o cabelo azul ali era só um statement, um grito, uma alegoria para algo muito mais profundo. Ela está querendo dizer que não é igual às amigas do colégio que alisam, fazem chapinha ou sei lá o quê. Ela não. E os breves 16 anos precisam de gritos, ser diferente ainda não está tão internalizado. Diferente em quê? Diferente como? Nem ela ainda sabe, então começa pelo cabelo. Pintou de azul. Estava feio. Para mim. Minha estética não bate ali. Mas ela precisava de um elogio, pensei. A mãe deve ter urrado com essa cor, os amigos no colégio devem ter sacaneado. Cheguei perto com medo, porque afinal era uma adolescente. “Gostei do seu cabelo”. Ela ficou muito feliz, estava sendo elogiada na frente das amigas por uma estranha. Não que eu seja estilosa, mas com 32 anos já sabemos o que cai bem na gente ou não. Então enquanto fui indo embora, bem reparei que ela ficou me observando e gostando do meu sapato e dos meus óculos. Foi curioso. Foi o único elogio solitário que dei. Quando eram duplas ou trios, eu tentava elogiar todos, para que houvesse equilíbrio e paz. Mas naquele caso, senti que ela merecia esse brilho entre as amigas.

O cabelo do gari, o sorriso da guria correndo, a legging de estrelas da menina, o tênis marrom do skatista, os meninos jogando capoeira, o olho mais lindo do menino soltando pipa, as bolas coloridas que os meninos escolheram, o cabelo enorme da mãe de 4 filhos, tudo era bonito e emocionante. Mas de repente quis elogiar os ambulantes que acordam cedo pra dedéu, compram gelo, enchem o carrinho, carregam a mercadoria e torcem para que não chova, se deslocando quilômetros, não para um piquenique com a sua família, mas para o trabalho. Uma certa culpa me fez comprar um guaraná antes, eu não consegui simplesmente chegar e elogiar. Culpa, timidez, não sei. A senhora não estava de brinco, colar, nada. Pele arrasada pelo sol, pela falta de cuidado e pela vida, essa grande bocarra do tempo. Em pé metendo a mão no gelo, ela foi simpática, o que me animou para elogiá-la. Ao final olhei para o seu pé. Um sapato de oncinha! Estava ali então uma certa vaidade. Achei divertido e comentei “Gostei da sandália de oncinha, hein”. Foi como um susto, ela não estava pronta, há muito tempo alguém não faz isso com essa senhora, pensei e fiquei triste por isso, mas muito rapidamente fiquei feliz. Ela ficou sem graça e se tivesse um paninho na sua mão, limparia os dedos se desculpando. Eu já fui assim. Já me elogiaram, e já disse o preço da camisa. Eu melhorei. Mas ainda é difícil pra mim também. Ela me desejou um bom restinho de domingo. Querida.

Sofri bullying no colégio. Girafa, vara pau, retão dos boxes, pense em tudo. Eu não respondia, me alienava, vislumbrava minha saída da mediocridade. Os lugares que eu conheceria, os homens que amaria, os livros que leria – e já lia. Deveria ter respondido, claro. Isso me rende uma certa agressão hoje em dia. Me afeto rápido. O homem ultrapassa o sinal e fico fula. Já melhorei. Flores pra Edna, minha ex-analista. Risos. Não ter sido reativa numa fase vulcânica, a adolescência, me deixou com muita energia na barriga. Quando levo para o palco, sou mais feliz. O bullying do colégio não me feriu tanto assim. Os meninos eram tão nada, a representação ridícula da mediocridade. Não os admirava, logo se o meu nariz, minha bunda, meu cheiro, minha sexualidade fosse motivo de zombaria, eu ficava triste pois ser jovem é querer ser aceito, mas hoje olhando de longe, percebo que os sinais eram meus amigos e o elogio do professor de redação, a professora de artes me chamar para um curso de teatro fora do horário do colégio, tudo isso me protegia, tudo isso me confortou. Dei atenção para o mais valioso.

Tem um episódio da minha vida que ontem, andando pela Quinta, vendo as crianças mais lindas e diferentes e esquisitas e malucas e engraçadas, me fez lembrar da Noêmia, a professora de balé que tive com 6 anos de idade. Ela era russa e má. Um dia esqueci a rede no cabelo e ela disse que quem tinha cabelo ruim não podia esquecer a rede. Depois, ao final da aula, me vendo dar estrela e botar o pé na cabeça, me avisou que eu jamais seria graciosa. Eu já era como sou. As essências não mudam. Adquirimos pentelhos, traumas e manias, mas ainda somos os mesmos. O balé já não era pra mim. As regras me causavam bocejo. As meninas me pediam para fazer as macaquices, e eu já gostava do palco e da plateia. Mas minha pequena existência desobediente exasperava Noêmia, que trouxe o balé russo para o Brasil. E na apresentação da páscoa, estava ansiosa para subir no palco, mesmo que fosse para mostrar regras. Era palco, tinha cheiro de cortina, camarim. Todas as meninas estavam uma ao lado da outra. Todas amavam o balé, todas obedeciam, todas esperavam. Eu não – me defendo trocentos anos depois. Noêmia sabia que eu era uma boxeur, uma pequena provocadora, que eu inventaria passos, não reproduziria. Eu não sabia que eu era assim, só sabia que era inquieta pois os adultos se referiam a mim assim. As meninas em fila. Eu na fila. Noêmia passou uma a uma, dizendo coisas do tipo: “Postura! Pezinho!” Ao me ver, eu criança linda com orelhas de abano, linda, cabelo ruim, linda, já narigudinha, linda, dentes enormes, linda, olhão arregalado, linda, possíveis roxos pelo corpo, linda, ela parou, me olhou no olho, e com um cheiro que acho que vou sentir quando for à Rússia, Noêmia disse: “Horrorosa”.

Comecei a ter caganeira antes do balé. Minha mãe percebeu e me botou na ginástica olímpica onde fui feliz pulando na cama elástica. Não contei pra minha mãe que a dona do balé me chamou de horrorosa. Minha mãe era muito bonita e eu não podia avisar pra ela que eu não era. Essa história foi do mal. Isso me machucou. Eu tratei. Na análise, no teatro, no vinho, na Grécia Antiga, no sexo, na pista de dança, eu tratei.

Ontem na Quinta da Boa Vista, elogiando estranhos, lembrei do dia em que abri o obituário (gostava de ler nomes estranhos) e vi que Noêmia tinha morrido. Gostava de pensar num inferno de crianças azucrinando Noêmia, crianças zombeteiras. Esfregando o cabelo dela, fazendo cosquinha até ela passar mal. Toda criança que elogiei ontem foi uma espécie de cura da minha criança. Que toque a música dos campeões de filme ruim norte americano. Perdão, mundo. Às vezes o clichê nos abraça de tal maneira que resistir é pior. Foi isso mesmo. Cada criança que eu chamei de linda ontem, era um pouco pra mim. Flores para todos.


Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
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STENDHAL E O SÉCULO XIX

Há 3 meses


O Vermelho e o Negro é um clássico da literatura mundial. Na epígrafe está escrito, “uma crônica do século XIX”, e de fato é.

Henri-Marie Beyle, ou Stendhal, nasceu em 1783. O livro foi publicado entre 1827 e 1830, dos 44 aos 47 anos do escritor. Trata-se da história de Julien de Sorel, um filho de carpinteiro, nascido na província, que adorava Napoleão, dotado de grande capacidade intelectual – quase um gênio mnemônico – que sabia a Bíblia de cor em latim e também leitor de Horácio e outros poetas latinos. Mesmo sem fé, Julien tentou seguir uma carreira na Igreja, e por isso passou a viver no meio da hipocrisia, tanto sua quanto da sociedade. Apaixonou-se perdidamente duas vezes por mulheres da alta burguesia – que passou a frequentar por causa de seu trabalho – e, por fim, perdeu a cabeça na derradeira lâmina francesa, aos vinte anos de idade.

Assim como em Romeu e Julieta, todas as tomadas de decisão de Julien são sob extrema tensão. Como nasceu na província, sua perspectiva de vida já era tolhida em quase sua totalidade. Ainda jovem, percebeu que sua vida não teria grandes vôos. Ambicioso, queria conhecer Napoleão, e não seguiu a carpintaria, como o pai. Sendo um burguês comum sem linhagem, Julien não viu outra forma de chegar a um cargo elevado e sair de sua cidade que não tentando ser padre. Quase conseguiu, mas tropeçou em sua própria natureza explosiva.

Julien é um herói, um poeta. Por que? Porque colocou 
fogo nos corpos da alta burguesia da época, saindo de 
“seu lugar”, guiando-se pela paixão e o desejo.

Julien de Sorel não é um Lucien de Rubempré, personagem balzaquiano, também nascido na província, que tinha sonho de ser poeta em Paris e virou jornalista. Não é o próprio Rimbaud, da pequena Charleville, que precisou conhecer a intelligentsia parisiense pra saber que aquilo tudo se tratava de uma grande bobagem – e só Verlaine valia a pena. Nem tampouco é um interesseiro que apenas queria subir na vida a qualquer custo. Julien é um herói, um poeta. Por que? Porque colocou fogo nos corpos da alta burguesia da época, saindo de “seu lugar”, guiando-se pela paixão e o desejo, e estremecendo as relações dos pretendidos à boa vida desde sempre, aos “bem nascidos”. Foi decapitado, lógico, mas restou a experiência. Tinha apenas seu talento para tentar viver e soube entender, desde sempre, o que o movia ao longo dos acontecimentos – e agiu como tal. O resto é literatura, assim como toda a sua vida.

E vem essa coisa da província, do desejo de sair do lugar, onde pouca coisa acontece. Onde sabe-se que tudo é como é porque a concentração de interesses fica em outro lugar, em círculos pequenos e fechados que só rodam para si, onde as luzes piscam mais, onde há menos ternura e mais desejo, malícia. A cena de seu pai o visitando no calabouço faz pensar se tudo aquilo valeu a pena. É o retorno da origem. Julien só quis apelar quando soube que seu grande amor não havia morrido, por suas próprias mãos – quando percebeu que não conseguiria viver sem aquele fogo.

A poesia do século XIX, ou melhor, a literatura do século XIX é tão fascinante quanto seus acontecimentos históricos. Stendhal já tinha seus vinte anos quando tal século começou, e já tinha vivido a Revolução e suas consequências, mas seu livro não. Pensar que foi o século de Balzac, Victor Hugo, Dumas pai e filho, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Musset, Lautréamont, Zola, Flaubert, Gogol, Tolstói, Dostoiévski, Emerson, Whitman, Poe, Mark Twain, Henry James, Emily Dickinson, e é claro, Àlvares de Azevedo, Castro Alves, José de Alencar, Machado, Bernardo Guimaraens e outra penca de gente, só para falar da literatura, dá até a impressão que alguma coisa aconteceu para ter gerado tanta gente, em épocas e lugares diferentes é claro, mas que formou esse panteão de heróis que hoje enfileiram a prateleira dos clássicos.

O poeta é a antena de seu tempo, e todos esses conseguiram, cada qual do seu jeito, deglutir este século tão fértil e fervilhante, cujo eco vivemos até hoje.

Vitor Paiva, este texto é dedicado a você.


Pedro Lago é poeta.

SEXO, POLÍTICA E PERVERSÃO

Há 3 meses


Acabei de ler o sensacional e sensual livro A guerra dos Gibis 2 - Maria Erótica e o clamor do sexo – imprensa, pornografia, comunismo e censura na ditadura militar. O livro de Gonçalo Junior é um tesão e abarca o período de 1964 a 1985 de um jeito diferente. Além de contar a vida das grandes editoras do gênero erótico, Gonçalo passeia pela história de “pequenos editores, desenhistas e roteiristas de quadrinhos quase anônimos, que, algumas vezes, fizeram a censura de boba por pura sacanagem, em todos os sentidos”. A pesquisa detalhada traz cartas, mais de 500 imagens e depoimentos delirantes como os do Ministro da Justiça da ditadura Médici, Alfredo Buzaid: “O nosso propósito é preservar a integridade da família brasileira, que guarda tradição de moralidade, combatendo o processo insidioso do comunismo internacional que insinua o amor livre para desfibrar as resistências morais de nossa sociedade.” Em oposição a isso vemos as estratégias de editores e desenhistas como Ênio Silveira, Minami Keizi e Claudio Seto para burlar a censura dos militares e o conservadorismo da sociedade brasileira. Vale muito a leitura.

Sexo e política sempre estiveram conectados seja no prazer ou na perversão. Não foi só no Brasil que as tarjas pretas cobriam pirocas e bucetas. Lembremos que só nos anos 1960 a justiça britânica acabou com medidas administrativas que censuravam trechos de obras como O amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, que morreu em 1930 sem saber disso. Voltando mais no tempo penso nas fortes imagens geradas nas histórias da dupla de ataque mais sinistra do time dos perversos: Marquês de Sade e Leopold Sacher-Masoch. Acho que ter seu nome transformado num adjetivo é o auge para qualquer escritor. Se isso já tinha acontecido com a Safo de Lesbos, com safada e lésbica, os dois pervertidos se transformaram num só. O Marquês veio antes, no século XVIII, criando com seu nome e sua ficção o sadismo. Leopold veio no século XIX indo fundo no masoquismo. Juntos formaram a duplinha de conceitos mais popular da psicanálise e da sexologia: o sadomasoquismo.

Se a obra dos dois pode ser lida como as narrativas mais impuras já escritas (como definia sua obra o próprio Sade) também podemos ler toda essa perversão por uma chave política. As loucuras imaginadas por Sade em 120 dias de Sodoma, quando quatro libertinos se juntam num castelo para realizar seiscentas paixões, ficam impressas na cabeça, mas de uma forma estranha, geram em mim um senso de anarquismo extremo. A lei e a ordem como estamos acostumados são colocados abaixo e todos participam ativamente do ato sexual num tesão e numa tensão que são apenas possíveis, pra mim, no plano da imaginação e da fantasia. Perto de Sade só mesmo a Auto Biografia de Lucas Frizzo, de Botika, quando o Lucas esquarteja a Malu Mader, coloca seu tronco amarrado em cima de um cachorro para fodê-la pela casa. Há a completa ruína da família, da moral, dos costumes, das leis, das propriedades, das instituições, do amor, das alianças, não sobra pedra sobre pedra. Os militares deviam ter tremores e censuradas poluções noturnas com tudo isso. Esse sexo de Sade nos aproxima do corpo ao mesmo tempo em que nos repele, um lugar paradoxal do erótico que esgarça todos os limites do que se pode imaginar como saudável. George Bataille dizia que era no mal que esculpíamos os traços efetivamente humanos de nossa fisionomia. Em Sade isso é extremo.

Quase um século depois o austríaco Sacher-Masoch entra nessa tabelinha da perversão com Sade. Menos famoso que seu coirmão Francês, mas não menos transgressor, a metonímia do masoquismo escandaliza a Europa com o seu Venus im pelz ou Vênus das peles. A Vênus dominadora de Leopold é Wanda von Dunajew, que tem como escravo sexual Severin von Kusiemski. Todas as imagens clássicas da submissão masoquista estão nesse livro: o chicote, a bota de cano longo e saltos finos, os espartilhos, roupas justas de couro, as cordas, as amarrações, a violência verbal e física. O livro gerou várias adaptações para o cinema, para os quadrinhos, e influenciou até o rock, Venus in furs do Velvet Underground é claramente inspirada em Masoch, eu não esperava nada menos do saudoso Lou Reed.


Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly.
Strike, dear mistress, and cure his heart.


A Vênus em pele torna-se a dona do homem, invertendo os papéis mais comuns à época. Mais que dona aquela mulher é senhora daquele escravo e pode fazer com ele o que quiser. Em Senhora, de José de Alencar, vemos essa inversão de papéis sociais. Uma dama rica compra o casamento com um homem através do dote, mas não há menção de qualquer perversão sexual. Na literatura brasileira isso aparecerá em Dentro da noite, o livro mais bizarro de João do Rio, povoado pelas mais estranhas aberrações sexuais retiradas de um manual de patologias sexuais. Mas, politicamente, é o livro de Sacher-Masoch o que vai mais longe. Depois de toda a experiência violenta do casal, Wanda se apaixona por um homem ao qual quer se submeter e Severin se cansa de ser escravo. Os dois separam-se com o outrora escravo chegando à conclusão que: “A moral é que a mulher, tal como a natureza a criou e como o homem a educa, é sua inimiga, podendo tão-somente ser sua escrava ou sua déspota – jamais sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho for igual a ele”.

Tirinha do Adão Iturrusgarai

'Maria Erótica' é uma criação de Claudio Seto, publicada entre 1970 e 1972

Depois de toda a relação hiper-sexualizada do casal o austríaco masoquista chega à conclusão que a saída para uma vida de casal com companheirismo é a igualdade de gêneros, mesmo que ainda esteja preso a conceitos bem oitocentistas como nascimento e berço.

Na volúpia da literatura brasileira quem me parece ir mais longe ao abordar estranhas perversões é Hilda Hilst. Há um poema em particular que me faz sempre tontear entre o tesão e o asco. Hilda aborda com coragem e desenvoltura um tema muito delicado: o sexo na infância. A escritora vai longe em suas sacanagens ao transformar fábula infantil em putaria maravilhosa, transgredindo e extrapolando as fronteiras. O poema “Filó, a fadinha lésbica” pode chocar alguns por sua linguagem infantil mesclada com fortes imagens de lesbianismo explícito. 


Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até…
Que escarafunchava bonecas.


Talvez possa parecer aos mais desatentos e reprimidos uma apologia à doença que é a pedofilia. Mas embora o poema tangencie esse assunto vale lembrar aos moralistas de plantão que a literatura é espaço de pensamento e fantasia materializada em letras e não em ações, e que por isso é possível falar de estupro, assassinato ou pedofilia, sem que isso seja uma apologia a estes gestos abomináveis.

Faço também outra leitura do poema e, como já havia dito no primeiro artiguinho dessa série, prefiro sexo à violência e acredito que Hilda também prefira assim. No lugar da violência das fábulas para crianças dos irmãos Grimm, nas quais transbordam assassinatos, prisões, privações e sofrimentos que são impostos aos pequenos, aparecem na longa fábula da fada de Hilda o sexo e a delícia do prazer em símbolos e linguagens infantis. Se podemos relacionar infância e violência porque não infância e sexualidade?

Há que se experimentar a potência política do sexo, seus prazeres e suas perversões como dinâmicas sociais que vivemos no corpo. É preciso também denunciar sempre os abusos, mas o que não podemos fazer nunca é deixar esse assunto interdito, como se fosse algo apenas restrito ao estranho mundo dos corpos no escuro.


Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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DA INCERTEZA DE SER EU A TODA HORA E TODO MOMENTO

Há 3 meses


Uma vez quando fui fazer/ter uma dessas experiências esotéricas para me conhecer melhor, desvendar segredos da minha pessoa através do outro, dos céus, da lua, do i-Ching, deparei-me com duas situações diferentes, duas informações que me marcaram bastante, ambas transmitidas por homens. A primeira era que eu tinha que aprender a relaxar, que eu tinha a mania de controlar tudo. É verdade, tenho. Tenho tendência a querer encontrar as certezas, estudar situações até encontrar as verdades absolutas. Acho que me movo no preto e branco, não entendo isso dos cinzentos. Essa coisa tão inerente ao brasileiro de deixar fluir é algo com que me debato bastante, pra mim é muito difícil. Gosto do constante, do certo, do branco ou do preto.

Acho que como espécie ainda tendemos muito para a segurança da constância e consequentemente do controle. Por isso criamos códigos de conduta, etiqueta, instituições, nacionalismos. A incerteza é algo que nos deixa muito inseguros, a incerteza sobre nós, sobre o outro.

Outro dia, ao por pela primeira vez uns tênis, lembrei-me imediatamente do primeiro dia de aula na escola nova de quando eu tinha 13 anos. Lembro-me do mesmo sentimento ao andar, os pés desconfortáveis no sapato ainda não moldado, e aquele sentimento de que toda a gente vai perceber que os meus sapatos são novos pela maneira tosca que estou a andar, e ninguém vai querer falar comigo. Não posso negar que ainda hoje, adulta, nos primeiros 15 minutos em que andei com tênis novos aqui em São Paulo, fui atacada pela mesma insegurança, achando o tênis branco demais, os meus pés grandes demais, as pessoas me olhando esquisito.

Enfim, aos poucos vou entendendo que a vida é mais em tons cinzentos. Eu própria que sempre me achei e sempre lutei para ser tão preto-ou-branco, descubro em mim vários graus de cinzento. E isso me leva à segunda informação que me foi transmitida, que era que eu não sou uma, mas três. Ou seja, eu não sou apenas eu, sou eu + eu + eu. Isto só veio confirmar uma suspeita que temia a um tempo: a inconstância vive dentro de mim. A única certeza é que sou várias (naquela altura era três, hoje começo achar que sou 4 ou 5), é incerto quem sou eu a toda hora e a todo o momento. É muitíssimo irônico que eu, aquela que tende a controlar, que tende para a constância, nem em mim própria consigo aquilo que prego.

O melhor é mesmo mudar de doutrina. Na verdade é necessário. Reparo isso não só comigo mesma, mas mesmo com os outros. Estamos tão habituados a constância dos outros que quando eles agem de uma maneira que não a deles é o fim do mundo. Sou uma pessoa muito alegre e sempre que fico calada ou fico mais introspectiva, é um choque muito grande para os outros à minha volta, eles ressentem-se muito e às vezes culpam-se. É preciso aceitar a incerteza para aceitar o outro melhor e para se aceitar melhor. Perceber que não somos seres encafuados dentro de um quadrado, que mudamos constantemente e constantemente aprendemos e crescemos para fora das bordas.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.